sexta-feira, 9 de maio de 2014

Tem Futuro o Homem (Parte I do capitulo 1 ao 6)


Bertrand Russell

Tem
futuro
o
homem?
Has man a future?

Primeira tradução 1962
Breno Silveira

revisão livre 2013:
Rudson F. da Silva
e-mail: rdmatheist@gmail.com

Esta é uma livre revisão da obra “Has Man A Future?” que foi traduzida pela primeira vez por Breno silveira. O objetivo desse trabalho é puramente livre de quaisquer obtenção de lucro, e de forma a colocar aos leitores de filosofia e críticos de plantão um trabalho a muito deixado de canto nas prateleiras empoeiradas dos sebos.
Ler esse trabalho do Bertrand Russel é simplesmente estar contemplando a sua grande conquista na paz mundial, é ver que todo trabalho em prol de uma humanidade mais humana, não mera perda de tempo, é reviver aquela terrível época de aflição científica e filosófica.
Realmente se quisermos a paz devemos nos preparar para a guerra, pois a grande guerra vivida por Bertrand foi a busca da paz, e nessa por mais que ele não esteja aqui suas estratégias nesse campo renderam fruto.
Homem de pensamento, vulto dos mais brilhantes de toda a cultura ocidental contemporânea, Bertrand Russel tem sido, ao longo de várias décadas, um ativo e incansável campeão da paz mundial, do entendimento enter os homens.
Nos últimos anos, sobretudo, quando o perigo de destruição de toda a humanidade, caso seja deflagrado um conflito entre duas grandes potencias nucleares,o nome do grande sábio aparece constantemente nas manchetes de jornais como orientador de movimentos pacifistas, de campanhas pelo desarmamento nuclear ou como vítima de repressões postas em prática pelo governo de seu País. Não obstante a circunstancia desse próprio governo também se declarar, quando lhe convêm, defensor de uma politica coexistência pacifica.
Nos círculos militares dos Estados Unidos e da Alemanha de Adenauer, setores notoriamente interessados na manutenção da chamada Gerra Fria, procura-se cobrir de ridículo a figura desse homem excepcional, que não teme calunias e enfrenta corajosamente dadas as coações em sua campanha que visa meter um pouco de bom senso na cabeça de governantes e governados. A revista americana Time, que se caracteriza pelo estilo mordaz com que se refere a fatos e personalidades, tenta impingir-nos o conceito de que o velho filosofo esta miolo mole, ou de que é uma versão humana a anacrôna de estranho inseto antediluviano, que passa os dias a zumbir inconsequentemente.
O que esses grupos não admitem, na realidade, é que um vulto da envergadura mental e moral de Bertrand Russel(pode-se discordar dele em muita coisa, mais jamais desrespeitá-lo como limpo e digno cidadão do mundo) se dirija com igual desenvoltura a Kennedy e Krutschev – como o fez recentemente na fase aguda da crise cubana – mostrando-lhes as graves consequências que poderiam ter quaisquer atitudes precipitadas de um ou outro. O que não toleram, mais ainda, é o fato de Bertrand Russel ter elogiado a atitude conciliatória assumida pelo governo soviético e, por omissão vertebrados as manobras agressivas e belicosas dos Estados Unidos.
O povo brasileiro, de inegável e arraigada tradição pacifista, compreende e estima como fundamentalmente válida a campanha do velho pensador, que é sempre jovem e atuante em defesa dos legítimos direitos do homem a paz e a segurança de viver nos moldes de sua livre escolha.
Estamos certos de que você recebera este pequeno livro com entusiasmo e calor humano, pois aqui nos é mostrado, com a clareza de que é capaz o autor, que o homem não terá futuro se não dispuser a colocar em termos práticos e viáveis a teoria da coexistência pacifica.
Noticiam os jornais brasileiros que é pensamento de nosso atual governo reunir aqui, sobre a presidência de Bertrand Russel, doze dos mais eminentes pensadores e cientistas do mundo contemporâneo representando cada qual um elo de poderosa corrente que formaria em prol da sobrevivência da humanidade.
Se esse encontro se der, unamo-nos todos no aplauso e no louvor a Bertrand Russel, pois a existência de homens como ele é uma esperança, uma garantia de que o mundo ainda não chegou ao impasse definitivo, para o qual só há uma saída: sua completa destruição.

Do original inglês: Has Man a Future?
Tradução de Breno Silveira
1962


Reescrito e revisado por Rudson
email: rdmatheist@gmail.com
2013


Índice

  1. Prologo ou Epilogo?
  2. A Bomba Atômica
  3. A Bomba H
  4. Liberdade ou Morte?
  5. Os Cientistas e a Bomba Atômica
  6. Condições a Longo Prazo da Sobrevivência Humana
  7. Por que não se vê com bons olhos um Governo Mundial?
  8. Primeiros passos na direção de uma Paz Segura
  9. Desarmamento
  10. Problemas territoriais
  11. Um mundo estável



Maldito seja aquele que primeiro inventou a guerra: Marlowe...

Capitulo I
Prólogo ou Epílogo?
Mas é útil que, passemos em revista o passado, o presente e o futuro(se houver) de nossa espécie, examinando, para nosso bem ou nosso mal, o que o Homem fez, está fazendo e possivelmente faça...


O Homem, ou homo sapiens, como ele, um tanto arrogantemente gosta de chamar-se, é a mais interessante e, ao mesmo tempo, a mais irritante das espécies animais que habitam o planeta Terra ”.
Essa poderia ser a primeira sentença do capitulo final de um relatório sobre a nossa flora e fauna escrito por um marciano dotado de espirito filosófico. Para nos, profundamente envolvidos no assunto, como todos estamos, tanto emocional como instintivamente, nos é difícil conseguir a imparcialidade e a largueza de vistas que seriam naturais em se tratando de um visitante do outro mundo. Mas é útil que, passemos em revista o passado, o presente e o futuro(se houver) de nossa espécie, examinando, para nosso bem ou nosso mal, o que o Homem fez*¹, está fazendo e possivelmente faça, daqui por diante, quanto ao que se refere a vida na terra e, talvez, no futuro, quanto ao que concerne a vida alhures(em outros lugares). Nessa espécie de exame, as paixões temporárias perdem sua importância, como os pequenos motes que parecem planos vistos de um aeroplano, enquanto que as coisas de importância mais permanente sobressaem mais ousadamente do que num panorama mais limitado.
O homem, a principio, parecia não ter perspectivas muito promissoras quanto ao luta geral pela existência. Era ainda uma especie rara, menos ágil do que o macaco ao subir em arvores para fugir dos animais selvagens, quase destituído de proteção natural contra o frio, devido a ausência de pele felpuda, prejudicado por sua longa infância e tendo dificuldade para conseguir alimento, em competição com outras especies. Sua única vantagem inicial era o cérebro. A pouco e pouco, essa única vantagem provou ser cumulativa, transformando-o de fugitivo perseguido em Senhor da Terra Os primeiros passos desse processo são pré-históricos, sendo sua ordem conjectural. Aprendeu a dominar o fogo, que apresentava perigos semelhantes em especie, embora menores em grau, aos do desencadeamento da energia nuclear em nossa época. O fogo não apenas melhorou sua alimentação, mas, mantendo-o ele aceso à boca de sua caverna, assegurava-lhe ainda segurança durante o sono. Inventou lanças, arcos e flechas. Cavava fossos ocultos, nos quais os mamutes se debatiam inutilmente. Domesticou animais e no dealbar(romper) da historia descobriu os usos da agricultura.
Mas acima de todas as suas conquistas, houve uma suprema: a linguagem. A linguagem falada, devemos supor, desenvolveu-se muito lentamente, partindo de gritos puramente animais*². A linguagem escrita, que não era, a principio, representativa do falar, foi resultado de figuras informativas que, pouco a pouco, se tornavam cada vez mais estabilizadas. O mérito imenso da linguagem foi o de tornar possível a transmissão da experiência. O que fora aprendido por uma geração podia ser passado, em seu todo a geração seguinte. A instrução podia, em grande parte, substituir a experiencia pessoal. O escrever, ainda mais do que o falar, tornou possível a criação de um deposito de conhecimentos, e a suplementação da memória por meio de registros. Foi essa facilidade de preservar o que os indivíduos haviam descoberto que, mais do que qualquer outra coisa, tornou possível o progresso humano. Tinha havido um tempo em que se processara aperfeiçoamentos biológicos na capacidade cerebral, com avanço correspondente da capacidade genética . Essa época, porém, cessara cerca de 50.000 anos antes. Desde então, a inteligencia inata poco se desenvolvera, se é o que fizera, e o progresso humano dependia de habilidades adquiridas, transmitidas pela tradição e pela instrução. Os alicerces tinham sido lançados em eras pré-históricas, presumivelmente sem propósito consciente, mas, uma vez lançados, tornaram possível um avanço, que cada vez mais se acelerava, quanto ao conhecimento e a perícia. O progresso verificado nos últimos séculos foi maior do que em toda a história de que há registro. Um dos problemas de nossa época é que os hábitos de pensamento não podem mudar tão rapidamente quanto as técnicas – e o resultado disso é que, a medida que a habilidade aumenta a sabedoria se debilita.
Vindo dos longos milênios em que a sobrevivência humana permanecera duvidosa, surgiu o Homem com habilidades úteis e com instintos e hábitos formados por suas lutas passadas. Ainda teve de enfrentar perigos inumanos, tais como a fome, inundações e erupções vulcânicas. O que se podia fazer, nos primeiros tempos contra a fome vem narrado bi Gênese. Contra inundações, dois métodos eram tentados: Os chineses no raiar de sua história construíram diques ao longo do rio Amarelo, enquanto que a Ásia Ocidental como se lê na arca de Noé, achava que a melhor proteção contra isso consistia em uma vida virtuosa. Pensavam assim também a respeito de erupções, deram também expressão literária a esse pensamento na narrativa da destruição de Sodoma e Gomorra. Até hoje esses dois tipos de teoria, o chines e o asiático ocidental persistem em vivo antagonismo, prevalecendo porém pouco a pouco e cada vez mais o ponto de vista chinês. Acontecimentos bastante recentes contudo, mostraram que uma vida virtuosa(não inteiramente no sentido tradicional) é tão necessária a sobrevivência como os diques chineses.
Quando o Homem deixou para trás os perigos do meio desumano em que vivera trouxe consigo para o seu mundo novo sua constituição emocional, mediante a qual sobrevivera através das eras anteriores. Precisara de um grande grau de tenacidade e de ardente determinação para sobreviver, se possível. Precisara de prudência alerta, de temerosa atenção e em momentos de crise, de coragem diante do perigo. O que faria ele com esse aparelhamento de hábitos e de emoções quando os antigos perigos tivessem sido vencidos? Encontrou uma solução, mas desafortunadamente não muito feliz. Voltou sua hostilidade e desconfiança, que até então se dirigiam a leões e tigres para seus semelhantes – não todos eles, já que muitas das habilidades que lhe permitiram sobreviver requeriam cooperação social, mas somente contra aqueles que não pertenciam ao seu grupo. Assim mediante coesão tribal e guerra organizada, conciliou durante muitos séculos a necessidade de cooperação social com a ferocidade e a desconfiança instintivas que as lutas passadas haviam nele produzido. Desde o raiar da história até os nossos dias a habilidade criada pela inteligência transformou continuamente o meio, enquanto que o instinto e a emoção continuaram de um modo geral, tal qual haviam sido modelados para adaptar-se a um mundo muito mais selvagem e primitivo*³.
Ao voltar para grupos rivais o medo e a desconfiança que sentia ante um mundo desumano, sua atitude gerou um novo grau de espirito gregário. O homem não é um ser completamente social como as formigas ou as abelhas, essas quais segundo parece, jamais sentem qualquer impulso de agir de maneira anti social. Os homens não raro, tem assassinado seus reis, mas as abelhas não matam suas rainhas(1). Uma formiga adventícia que se meta num formigueiro estranho é morta instantaneamente, jamais ocorrendo qualquer protesto pacifista. São desconhecidas as minorias dissidentes e a coesão social governa invariavelmente a conduta de cada indivíduo. Com as criaturas humanas não se dá o mesmo. O homem primitivo não conhecia provavelmente nenhum grupo social maior que sua família. Como consequência do do perigo oriundo de inimigos humanos a família ao que devemos supor aumentou, convertendo-se em tribo que tinha ou julgava-se ter um ancestral comum. A guerra produziu uniões de tribos e daí nações, impérios e alianças. Rompia-se as vezes a necessária coesão social, mas quando tal ocorria seguia-se a derrota. Em consequência disso, não só por seleção natural, mas por perceber que aquilo era de seu interesse os homens tornaram-se cada vez mas capazes de cooperação de grandes grupos, exibindo um espírito gregário que seus ancestrais não possuíam.
O mundo que vivemos foi modelado por cerca de 6000 anos de lutas organizadas. As populações derrotadas por vias de regras eram exterminadas ou grandemente reduzidas em número*¹¹. O êxito na guerra dependia de vários fatores, os mais importantes eram: populações maiores, maior habilidade técnica, coerência social mais perfeita e ardor. De um ponto de vista puramente biológico, podemos considerar como progresso tudo o que aumenta o número de criaturas humanas que possam viver em determinada área. Encaradas de um ponto de vista um tanto acanhado, muitas guerras tem de ser consideradas como afortunadas. Os romanos devem ter aumentado grandemente as populações da maior parte do Império Ocidental. Colombo e seus sucessores fizeram o hemisfério ocidental manter um número muitas vezes maior de indivíduos do que ao tempo dos índios pré-colombianos. Na China e na Índia, foram os governos centrais estabelecidos após séculos de luta que tornaram possível o seu número enorme de habitantes, mas isso nem sempre foi de modo algum resultado de guerras. Os mongóis causaram na Pérsia danos irreparáveis, como os turcos no império dos califas. As ruínas existentes na África do Norte, em regiões hoje desertas são testemunhas eloquentes do dano causado pela queda de Roma. Calcula-se que a rebelião de Taiping causou mais mortes do que a Primeira Guerra Mundial. Em todos esses casos coube a vitória ao lado menos civilizado. Não obstante apesar desses exemplos contrários, é provável que bem pesadas as coisas, a guerra do passado tenha contribuído para aumentar do que diminuir o número das populações humanas de nosso planeta.
Há porém um outro ponto de vista além da biologia. Do ponto de vista de meros números, as formigas são muito centenas de vezes mais bem sucedidas do que os homens. Vi na Austrália vasta regiões vazias de criaturas humanas, mas povoadas por inumeráveis hordas de térmites, mesmo assim não consideramos os térmites superiores a nós. O homem possui outros méritos além daqueles que fizeram dele o mais numeroso dentre os grandes mamíferos. Tais méritos distintamente humanos, podem ser designados coletivamente como culturais. São antes mais característicos de indivíduos do que de sociedades, e envolvem matérias inteiramente distintas das que se referem a coerência social e a capacidade de vitória na guerra.
A divisão da humanidade em nações competidoras e com frequência hostis, teve efeito desastrosamente deformador sobre os juízos nacionais a cerca de quem merece honrarias. Nós na Grã Bretanha dedicamos os nossos mais imponentes monumentos públicos a Nelson e Wellington*¹², a quem honramos por sua habilidade em matar estrangeiros. Por mais estranho que pareça os estrangeiros não sentem a mesma admiração que nós pelos britânicos que revelam essa espécie de habilidade. Se perguntássemos a qualquer indivíduo culto não britânico quais eram na sua opinião as maiores glórias da Grã Bretanha, seria mais provável que ele ao invés de Nelson ou Wellington se referisse a Shakespeare, Newton e Darwin. É possível que o extermínio de estrangeiros tenha sido algumas vezes necessário ao interesse da raça humana em geral, mas quando se procurava justificá-lo tinha algo assim de um trabalho policial e não raro, revelava apenas orgulho nacional e rapacidade*¹³. Não é pela sua habilidade no homicídio que a raça humana merece respeito. Quando, como no Livro dos Mortos egípcio, o possivelmente último homem compadecer perante o Juiz do Mundo cá de Baixo e disser que a extinção de nossa espécie foi algo lamentável, que argumentos poderá ele apresentar em defesa de sua opinião? Gostaria que ele pudesse dizer que sua vida humana em geral fora feliz. Mas até aqui desde pelo menos a invenção da agricultura, da desigualdade social e da guerra organizada, a maioria da raça humana viveu uma vida de sofrimento, labuta incessante e de vez em quando desastres trágicos. Talvez este não seja mais o caso no futuro, já que um pouquinho de sabedoria poderia agora tornar aprazível toda a vida humana – mas quem poderá dizer que virá esse pouquinho de sabedoria? Entrementes, será algo diferente de uma história de felicidade geral o que o nosso último homem terá de oferecer à aprovação de Osíris.
Se fosse eu o que estivesse a pleitar perante Osíris a continuação da raça humana, dir-lhe-ia: “Ô justo e inexorável juiz, a acusação que faz à minha espécie é por demais merecida, e jamais tão merecida quanto atualmente. Mas não somos absolutamente culpados, pois que poucos dentre nós dispõe de melhores potencialidades do que aquela que as circunstâncias em que vivemos produziram. Não esqueçais que apenas recentemente saímos do atoleiro da velha ignorância e da luta milenar pela nossa subsistência. Quase tudo o que sabemos, descobrimo-lo durante as últimas doze gerações. Embriagados pelo nosso novo poderio sobre a natureza, muitos dentre nós se extraviaram, passa de ignis fatus que nos seduz, fazendo-nos voltar ao atoleiro de que só recentemente em parte, nos libertamos. Mas essa obstinada insensatez não absorveu todas as nossas energias. O que chegamos a saber acerca do mundo em que vivemos, acerca de nebulosa e de átomos, das coisas grande e pequenas, é muito mais do que teria parecido possível antes de nossa época. Podeis retorquir que o conhecimento não é bom, exceto nas mãos daqueles que dispõe de bastante sabedoria para usá-lo. Mas essa sabedoria também existe, embora ainda se manifeste apenas esporadicamente e não disponha de poder para controlar os acontecimentos. Sábios e profetas pregaram acerca da loucura das disputas, e se lhe dermos ouvidos surgiremos de novo à tona para gozar de uma nova felicidade.
Os nossos grandes homens nos ensinaram não apenas aquilo que devemos evitar. Mostraram-nos também que está dentro das forças humanas criarmos um mundo de resplendente beleza e transcendente glória. Considerai os poetas, os compositores, os pintores, os homens cuja visão interior se revelou ao mundo em edifícios de majestoso esplendor. Todo esse pais de imaginação pode ser nosso. E as relações humanas também ter a beleza da poesia lírica. Em certos momentos, no amor entre homem e mulher, algo dessa possibilidade é experimentado por muitos. Mas não há razão para que isso deva cingir-se a estreitos limites; poderia, como na Sinfonia Coral, abranger o mundo todo, Essas são coisas que se acha dentro do poder humano, e que, se dispuserem de tempo, as idades futuras talvez possam realizar. Por todas estas razões, Grande Osíris suplicamos-lhe, concedei-nos um adiantamento, e a possibilidade de emergir de nossa antiga insensatez e de penetrar num mundo de luz amor e graça”.


Comentários do Bertrand:

*sobre o título do capítulo 1(Prólogo ou Epílogo): Desenvolvimento ulterior de um tema de que tratei sob o mesmo titulo, no livro A sociedade Humana na Ética e na Política.
*¹ Exceto de acordo com a lei da colmeia; o tiranicídio esporádico é desconhecido.

Comentários da reedição
*¹ Publiquei uma série de artigos intitulados Cartas de Um jovem Marciano: www.rdmsimptom.blogspot.com
*² Trabalhos para referencia sobre a origem da fala:
Steven Pinker – O intinto natural da Linguagem, Do que é feito o pensamento.
*³ Trabalhos para referencia sobre colapsos sociais:
Bábara Tuchman – A marcha da Insensatez.
Jared Diammond – Colapso.
*¹¹ Trabalhos para referência sobre violência:
Steven Pinker Os Anjos Bons de nossa natureza.
Jared Diammond – Armas Germes e Aço.
*¹² Horatio Nelson (Burnham Thorpe, Norfolk,29 de Setembro de 1758 – Cabo Trafalgar, 21 de Outubro de 1805); ArthurColley Wellesley(Dublin, 29 de abril de 1769 – Walmer Castle, Kent,14 de setembro de 1852)
*¹³ roubar com violência.

Capitulo II
A Bomba Atômica
O mundo enveredou por um caminho que conduz ao desastre...

A era Nuclear em que a raça humana está vivendo, e na qual logo poderá estar morrendo, começou para o público em geral com o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945. Mas cientistas Nucleares e certas autoridades americanas já tinham conhecimento há algum tempo de que tal arma era possível. Trabalhos no sentido de construí-la já tinham começado, logo no início da Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos, Canadá e Grã Bretanha. A existência de forças possivelmente explosivas no núcleo dos átomos era coisa já conhecida desde que a estrutura dos átomos foi descoberta por Rutherford. Um átomo consiste de um minusculo centro chamado “o núcleo”, dotado de elétrons que circulam em torno dele. O átomo de hidrogênio, que é o mais simples e leve possui apenas um elétron. Bombas mais pesadas possuem mais e mais átomos, a medida que galgam a escala. A primeira descoberta relacionada com o que se passa nos núcleos foi a da radioatividade, causada por partículas que são bombardeadas do núcleo. Sabia-se que uma grande quantidade de energia se achava no núcleo, mas até pouco antes do começo da segunda Guerra Mundial não havia maneira de se liberar essa energia em grande quantidade. Uma descoberta revolucionária foi a de que em certas circunstâncias, a massa pode ser transformada em energia, de acordo com a fórmula de Einstein que enunciava que a energia gerada é igual a perda de massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz. A ilustração mais simples reside na relação existente entre hidrogênio e hélio. Uma bomba de hélio consiste de quatro átomos de hidrogênio, podendo-se por conseguinte esperar que tivesse quatro vezes a massa de uma bomba de hidrogênio não é 1, mas 1,008. Quando átomos de hidrogênio se juntam para formar um átomo de hélio excesso é liberado como energia e deixa de existir coo massa. Eis ai o porque do sol ser quente; porque o sol é uma fábrica de hélio. O mesmo acontece sempre que elementos mais leves se juntam para formar elementos mais pesados, e esse é processo chamado fusão que se emprega na bomba H.
A boma A porém, usava um processo diferente, dependente da radioatividade. Nesse processo chamado desintegração um átomo mais pesado divide-se em dois átomos mais leves. Em geral, em substancias radioativas, tal designação se processa em velocidade constante, lenta quanto ao que se refere a substancias que ocorrem na natureza. Mas há uma forma de Urânio chamada “U235”, que quando puro produz uma reação em cadeia que se espalha como fogo, embora com rapidez enormemente maior. Foi essa substancia que se empregou na fabricação de bomba atômica. Havia muitas dificuldades a serem vencidas. A Primeira delas era separar o U235 do urânio ordinário, do qual constituía apenas uma pequena parte. O traidor Fuchs*¹ realizou importante trabalho no aperfeiçoamento desse processo, e constitui uma ironia o fato de que a bomba A jamais teria ficado pronta a tempo de poder ser usada contra os japoneses, se sua traição tivesse sido descoberta mais cedo.
O fato de que uma tal bomba deveria ser possível já era evidente aos físicos nucleares, desde que a reação em cadeia fora descoberta pouco antes do começo da Segunda Guerra Mundial. Apesar de toda as tentativas de sigilo, muita gente sabia que os trabalhos, tendo em vista a sua fabricação já estava em andamento.
O fundo político do trabalho dos cientistas atômicos era a resolução de derrotar os nazistas seria um desastre medonho. Afirmava-se também nos países ocidentais que os cientistas alemães deviam estar muito adiantados quanto a construção da bomba A e que, se conseguissem construí-la antes que o Ocidente o fizesse, ganhariam provavelmente a guerra. Terminado o conflito, descobriu-se para a surpresa tanto dos cientistas americanos quanto dos britânicos que os alemães ainda longe de ser bem sucedidos em seu intento e, como todo mundo sabe, os alemães foram derrotados antes que fossem construídas quaisquer arma atômica. Mas não me parece que os cientistas nucleares do Ocidente possam ser censurados por julgar tal trabalho urgente e necessário. Até mesmo Einstein era favorável ao mesmo. Quando porém, terminou a guerra com a Alemanha, a grande maioria dos cientistas que trabalhavam na fabricação da bomba atômica acho que a mesma não deveria ser empregada contra os japoneses que já estavam na beira da derrota e que, de qualquer modo, não constituíam uma ameaça tão grande ao mundo quanto Hitler. Muitos deles fizeram representações urgentes junto ao governo americano, manifestando a opinião de que ao invés de empregar-se a bomba como uma arma de guerra, deveria o governo americano, após uma declaração pública, fazê-la explodir num deserto, sendo que o controle futuro da energia nuclear deveria ser colocado nas mãos de uma autoridade internacional. Sete dentre os mais eminentes cientistas nucleares redigiram o documento que se tornou conhecido como “Relatório Franck”, e que foi apresentado ao Secretário da Guerra em junho de 1945. É esse um documento admirável, de larga visão, que se contado com o assentimento de políticos, teria evitado todos os horrores subsequentes a que ficamos sujeitos. Ressalta que o “êxito por nós conseguido no desenvolvimento da energia nuclear é cheia de todas as invenções do passado”. E prossegue acentuando que não existe segredo algum que possa ser mantido por tempo indeterminado, e que a Rússia certamente poderia dentro de poucos anos, construir uma bomba atômica. A Rússia com efeito levou quase que exatamente quatro anos para fazê-lo depois de Hiroshima. O perigo de uma corrida armamentista é enunciado em termos que nos anos subsequentes foram constatados com horror pela humanidade. “Se não se conseguir um acordo internacional eficaz – diz o documento – a corrida armamentista nuclear estará em pleno andamento logo na manhã seguinte a nossa primeira demostração da existência de armas nucleares. Depois disso outras nações poderiam levar três ou quatro anos para ultrapassar o nosso pregresso atual.” Passa a sugerir métodos de controle internacional e conclui: “Se os Estados Unidos fossem o primeiro país a lançar sobre a humanidade esse novo meio de destruição indiscriminada, sacrificariam o apoio público em todo o mundo , precipitando a corrida armamentista e prejudicariam a possibilidade de se chegar a um acordo internacional quanto ao controle de futuras armas.“. Esta não era uma opinião isolada. Era a opinião da maioria, entre os que haviam trabalhado para criar a bomba atômica. Niels Bohr – depois de Einstein, o mais eminente físico da época – dirigido tanto a Churhil como a Roosevelt os mais vivos apelos nesse sentido, mas nenhum deles lhe deu a menor atenção. Quando Roosevelt morreu o apelo de Bohr foi encontrado fechado sobre sua mesa de trabalho. Os cientistas tiveram contra si o fato de serem considerados homens sem traquejo internacional, alheios a realidade e incapazes de juízos realísticos quanto a política mundial. A experiencia subsequente, porém confirmou tudo o que havia diro, demostrando que eram eles e não os generais e os políticos que compreendia,m o que fazia mister.
Depois de Hiroshima cientistas atômicos indignados, fundaram uma revista mensal, The Bulletin of Atomic Scientists*² que continuou desde então a apresentar opiniões sensatas sobre as armas atômicas e guerra atômica.
Num discurso proferido na Câmara dos Lordes, em 28 de novembro de 1945, manifestei uma opinião que era substancialmente a mesma apresentada no Relatório de Franck*³, que eu ainda não havia lido. Disse eu(e cito o discurso por extenso):¹
Excelências:
É com grande hesitação que uso da palavra, não só porque apenas uma vez aqui falei antes, perante esta câmara, como ainda porque, apôs ouvir os debates de ontem e de hoje, sinto que outros horadores tem dez vezes mais conhecimento politico e vinte vezes mais experiencia do que eu quanto a estes assuntos – e que, assim, é uma impertinencia de minha parte dizer o que quer que seja. Ao mesmo tempo, o assunto a que desejo limitar minhas observações – isto é, a bomba atômica e sua relação com a conduta politica – é tão importante e pesa tão fortemente sobre meu espirito, que me sinto quase na obrigação moral de dizer algo acerca do que isso significa para o futuro da humanidade.
Gostaria de começar abordando apenas alguns poucos pontos técnicos, familiares creio eu, a toda a gente. O primeiro é que a bomba atômica se encontra, claro, em sua infância, e que é a bastante certo que se torne rapidamente, não só muito mais destrutiva como ainda muitíssimo mais barata de se produzir. Esses dois pontos creio eu, podem ser tidos como certos. Há ainda um outro ponto, acentuado pelo Prof. Oliphant, qual seja o de que não será muito difícil pulverizar-se uma região com produtos radioativos que extinguirão todas as coisas vivas que se encontram numa grande área – não apenas criaturas humanas, mas todos os insetos, toda a especie de coisa que tenha vida. E há ainda um outro ponto que talvez se relacione com o futuro um tanto mais adiante. Como Vs. Excelências sabem, existe em teoria dois meios de obter-se energia nuclear. Um é que se tornou agora praticável, desintegrando-se um núcleo pesado em núcleos de peso médio. O outro é um meio que não se tornou ainda praticável, mas que creio eu, o será com o tempo, isto é a sintetização de átomo de hidrogênio para que formem átomos mais pesados, átomos de hélio ou, a princípio, átomos de nitrogênio. No decurso dessa síntese, se puder ser efetuada, haverá uma libertação muito maior de energia do que a que existe na desintegração de átomos de urânio. Até o presente, este processo jamais foi observado, mas afirma-se que ocorre no Sol e no interior de outras estrelas. Só ocorre, na natureza, em temperatura comparáveis as que existem no interior do Sol. A bomba atômica atual ao explodir produz temperaturas consideradas como sendo mais ou menos iguais as que existem no interior do Sol. É possível, por conseguinte que alguns mecanismo análogo ao da bomba atômica atual possa ser empregado para produzir essa explosão muitíssimo mais violenta, que seria obtida se pudesse sintetizar elementos mais pesados do que o hidrogênio.
Tudo isso deve ocorrer, se nossa civilização cientifica prosseguir, se isso nçai a conduzir a sua própria destruição – e tudo isso pode ocorrer. Não queremos encarar essas coisas simplesmente do ponto de vista dos próximos anos; queremos encará-la do ponto de vista do futuro da humanidade. A questão é simples: é possível a uma sociedade cientifica continuar a existir, ou deverá tal sociedade, inequivocamente, acarretar sua própria destruição? É uma questão simples, mas vital.Não creio que se possa exagerar a gravidade das possibilidades do mal que reside na utilização da energia atômica. Quando passo pelas ruas e vejo a catedral de São Paulo, o Museu Britânico, os edifícios do Parlamento e outros monumentos de nossa civilização, vejo em meu espirito, numa visão de pesadelo, todos esses edifícios como montes de destroços, cercados de cadáveres. Essa é uma coisa que teremos de enfrentar, não apenas em nosso próprio país em nossas cidades, mas em todo o mundo civilizado, como constituindo uma probabilidade real, a menos que o mundo concorde em encontrar uma maneira de abolir a guerra. Grandes e graves guerras tem de ser abolidas, pois do contrário, tais coisas acontecerão.
Abolir a guera constitui sem dúvida um problema bastante difícil. Não tenho desejo algum de encontrar falhas naqueles que estão procurando abordar o problema; tenho plena certeza de que eu não poderia fazer melhor. Sinto simplesmente que este é um problema que o homem tem de resolver; do contrário o homem será eliminado e o nosso planeta se sentirá talvez feliz sem nós, embora não se possa esperar que compartilhemos dessa opinião. Acho que precisamos encontrar uma maneira de tratar disso. Como todos percebem, a dificuldade imediata consiste em se encontrar uma maneira de cooperar com a Rússia quanto a este problema. Penso que o que o Primeiro Ministro conseguiu realizar em Washington era, provavelmente, tanto quanto se poderia , no momento, realizar. Não me parece que ele pudesse fazer mais na ocasião. Não sou um dos que se mostram a favor de uma revelação incondicional e imediata a Rússia dos processos exatos segundo os quais a bomba é fabricada. Acho justo que tal revelação se faça sob certas condições, mas insisto em que tais condições devem ser somente aquelas que facilitem a cooperação internacional; não deverão elas deparar com qualquer espécie de vantagem para nós, mas, se fornecermos o segredo aos russos, isso só deverá ser feito sob a condição de que eles estejam dispostos a cooperar.
Nessa base, penso eu, seria justo que se lhes revelasse tudo a respeito o mais cedo o possível, tendo-se em mente, naturalmente, o fato de que esse constitui um segredo de curto prazo. Dentro de poucos anos, os russos terão, sem dúvida, bombas tão boas, sob todos os aspectos, como as que estão sendo feitas atualmente nos Estados Unidos – de modo que se trata de uma questão de muito pouco tempo, durante o qual manteremos uma posição vantajosa se é que o é.
Como Vossas Excelências, os homens da ciência que estiveram empenhados nesse trabalho acham todos extremamente ansiosos para que tal processo seja imediatamente revelado. Não estou inteiramente de acordo com isso, por razões que já enunciei, mas penso que isso pode ser empregado como um meio de se chegar a uma cooperação mais sincera e cabal entre nós e a Rússia. Apoio de todo o coração os discursos proferidos pelo Ministro do Exterior. Creio que a maneira de se assegurar a cooperação russa consiste simplesmente em manifestarmos desejo nesse sentido. Acho absolutamente necessário sermos firmes no que consideramos de importância vital. Acho mais provável que se consiga verdadeira cooperação usando-se de certa firmeza, do que indo a eles e pedindo-lhes que cooperem. Concordo inteiramente com o tom adotado nesses assuntos pelo Ministro do Exterior.
Devemos penso eu, esperar – e não creio que se trate de uma esperança quimérica – que se possa fazer com que o governo russo compreenda que a utilização desse meio de guerra significaria a destruição não somente deles como de todo o mundo. Devemos esperar poder fazer-lhes compreender que se trata de um interesse humano universal, e não de um assunto em que os países estejam divididos. Não me é possível, realmente, duvidar de que, se o assunto lhes fosse apresentado de maneira convincente, eles o compreendessem. Não é coisa muito difícil de perceber-se, e não posso deixar de pensar que eles possuem inteligência bastante para o compreender, contanto que o assunto se afaste da política e da competição, Há, como toda a gente vive a repetir uma atitude de desconfiança. Essa atitude de desconfiança só pode ser vencida mediante completa, máxima franqueza, afirmando-se: 'Há estas coisas, que consideramos de importância vital, mas quanto a outros pontos, estamos inteiramente dispostos a aceitar que os senhores defendam coisas que também consideram vitais. Se há algum ponto que ambas as partes considerem vitais, procuremos encontrar um acordo, antes que cada parte aniquile a outra, o que não redundaria em benefício de ninguém.'. Não posso deixar de pensar que, se expuséssemos aos russos o problema, de maneira inteiramente franca e apolítica, eles seriam capazes de percebê-lo tanto quanto nós... pelo menos assim espero.
Penso que poderíamos, neste assunto, valer-nos dos cientistas. Acham-se eles extremamente inquietos, com a consciência a acusá-los do que fizeram. Sabem que tinham de fazê-lo, mas não estão satisfeitos. Sentir-se-iam sumamente gratos se lhes fosse atribuída uma tarefa que lhes permitisse, de certo modo, atenuar o desastre que ameaça a humanidade. Acho que eles talvez fossem mais capazes de persuadir os russos do que aqueles dentre nós que que se encontram mais metidos nesse jogo; poderiam, abrir caminho para uma cooperação verdadeira. Dispomos ainda, creio eu, de algum tempo. O mundo no momento está cansado de guerra, e não me parece que constitua otimismo indevido supor-se que não haverá outra guerra dentro dos próximos dez anos. Dispomos, por conseguinte, de algum tempo, durante o qual poderemos gerar o necessário e genuíno entendimento mútuo.
Há uma dificuldade que, julgo, nem sempre é suficientemente compreendida de nossa parte, e essa dificuldade consiste em que os russos sempre sentem – e o sentem, ao que parece, com razão – que, em qualquer conflito de interesses, haverá russos de um lado e todo mundo do outro. Sentem que, na questão dos Três Grandes versus os Cinco Grandes, a Rússia estaria de um lado e os dois de, ou os quatro do outro. Quando as pessoas sentem assim, torna-se mister que seja, penso eu, um tanto delicado ao lidar-se com elas e que não se espere certamente, que elas se submetam a maioria. Não se pode esperar tal coisa, quando elas se sentem sozinhas em campo contra os demais. Haverá, sem dúvida, necessidade de muito tato, nos anos vindouros, para que se consiga a continuação da cooperação internacional.
Não vejo qualquer alternativa quanto a proposta, apresentada perante o mundo, de se fazer das Nações unidas a depositária da bomba atômica. Não me parece que haja uma grande esperança nisso, pois que as Nações Unidas, pelo menos atualmente, não constituem um poderoso organismo militar capaz de empenhar-se em guerra contra uma grande Potência – e quem quer que venha a ser, em última análise, o detentor da bomba atômica, terá de ser bastante forte para lutar contra uma grande Potência. Até mesmo que se possa criar uma tal organização internacional, não estaremos seguros. Não creio que haja qualquer utilidade em proibição que residam epenas no papel, quer quanto ao uso ou a fabricação de bombas, pois que não se pode fazê-las respeitar, e a penalidade por se obedecer a tais proibições é maior do que a penalidade por infringi-las, se estiver realmente pensando em guerra. Penso, pois que tais arranjos, quando apenas no papel, não tem força alguma.
Tem-se de criar primeiro o desejo de que se exerça um controle internacional sobre essa arma e, quando isso existir, será fácil de fabricar a maquinaria – uma vez que se tenha um organismo internacional poderoso e que seja ele o único depositário do emprego da energia atômica – esse será um sistema que terá perpetuidade. E que evitará, realmente, grandes guerras. Nascerão em torno dele hábitos de ação política, e poderemos seriamente esperar que a guerra desapareça do mundo. Trata-se certamente de um grande passo ; mas é uma medida que todos nós teremos de enfrentar: ou cessam as guerras, ou toda a humanidade civilizada deixará de existir, restando apenas meros remanescentes, alguns poucos indivíduos em regiões distantes, demasiado pouco científicos para fabricar tais instrumentos de destruição. E esses poucos indivíduos, sem meios científicos para isso, serão criaturas que perderam todas as tradições da civilização – e esse é um desastre tão grave, que penso que todas as nações civilizadas do mundo deveriam compreender tal fato. Acho que se poderá fazer com que elas o percebam antes que seja demasiado tarde. De qualquer modo, é o que ardentemente espero”.
Naquela época, em que as opiniões ainda não se haviam tornado intransigentes a Câmara dos Lordes ouviu-me com manifestações de aprovação e, tanto quando pude julgar, essa aprovação e, tanto quando pude julgar, essa aprovação provinha de todos os Partidos. Infelizmente, acontecimentos subsequenciais acabaram com essa unanimidade. De minha parte, porém, não vejo nada que deva retirar do que eu então disse.
O governo dos Estados Unidos, embora não pudesse furtar-se ao prazer de exibir seu novo poderio no campo da carnificina por atacado, procurou, depois da rendição japonesa, pôr em prática algumas das ideias sugeridas pelos cientistas atômicos. Em 1946, apresentou ao mundo o chamado “Plano Baruch”, que tinha grandes méritos de e revelava considerável generosidade, se nos lembrarmos que os Estados Unidos tinham ainda o monopólio exclusivo da energia nuclear. O Plano Baruch propunha a criação de uma Autoridade Internacional de Desenvolvimento Atômico, que deveria ter o monopólio da mineração do urânio e tório, refinação de metais, possuir materiais, construir e dirigir usinas necessárias ao uso da energia nuclear. Sugeriu-se que tal Autoridade deveria ser estabelecida pelas Nações Unidas e os Estados Unidos lhe forneceriam as informações que, até então, eram o único país a possuir. Infelizmente, havia certas provisões, na Proposta Baruch, que pareceram a Rússia de Stalin, cheia de orgulho pela vitória sobre os alemães, desconfiada(não sem razão) das Potencias Ocidentais, e convencida de que, nas Nações Unidas, teria o seu voto vencido. A criação de uma Autoridade Mundial, necessariamente evidente, se quisesse se livrar de um perigo de uma guerra nuclear, deparou sempre com a oposição da Rússia, como implicando a estabilização e a perpetuação de sistemas econômicos e políticos que, de acordo com o credo a aceitar qualquer espécie de Autoridade Internacional, terá de ser uma autoridade que não dê uma superioridade decisiva as Potências Comunistas. Tal ocorria com o Plano Baruch. Este poderia, talvez, sofrer emendas, de maneira a afastar as objeções russas, mas o governo soviéticos recusou-se terminantemente a discuti-lo, ou mesmo a aceitar a possibilidade de qualquer coisa nesse sentido. A consequência disso foi um rápido agravamento das relações entre a Rússia e o Ocidente e, dentro em pouco, a opinião pública americana era tal, que já não era mais possível fazer-se semelhante proposta.
Apesar do que os cientistas haviam dito a militares e políticos, tanto uns como outros e, ainda, o público americano, continuavam a acreditar que os Estados Unidos possuíam um segredo que poderia ser guardado dos russos durante longo tempo, e que a posse exclusiva de armas atômicas pelos Estados Unidos garantia a segurança do Ocidente. Quando, em agosto de 1949 , se ficou sabendo que a Rússia também possuía armas atômicas, supôs-se que isso se devia a espiões e traidores, embora, na verdade, os russos não tivessem feito, provavelmente, senão acelerar muito pouco o progresso de sua fabricação. Infelizmente, a convicção de que traidores, e não a capacidade dos russos, é que tinham privado os Estados Undos de seu monopólio, criou uma atmosfera geral de desconfiança, que deu lugar ao reinado McCarty e dos que pensavam como ele. Nem nos Estados Unidos, nem na Rússia, e nem mesmo na Grã-Bretanha e na França, os estadistas ou a opinião pública demostraram sequer um pouco da sabedoria que inspirara os seus melhores cientistas. O ódio era considerado sinônimos de patriotismo, e os preparativos de guerra encarados como se fossem a única salvaguarda da paz. O mundo enveredou por um caminho que conduz ao desastre.



Comentários do Bertrand:
*¹ Hamsad, Official Report, House of Lords, Vol. 138, Nº 30, Quarta-feira 28 de novembro de 1945.


Comentários da reedição
*¹ Klaus Emil Julius Fuchs – condenado por entregar à União Soviética dados sobre o desenvolvimento da bomba atômica durante e após a Segunda Guerra Mundial.
*² The Bulletin of Atomic Scientists – Revista publicada desde 1945 por um grupo de cientistas desenvolvedores da tecnologia nuclear, continua ainda hoje em edição na página http://www.thebulletin.org/; (pode ocorrer futuras alterações no link / revisto em 2013).

Capitulo III
A Bomba H
Se quisermos sobreviver esse estado de coisas não deve continuar...

A bomba atômica, quando surgiu, causou um estremecimento de terror, chegando mesmo a estimular sugestões a favor do controle internacional da energia atômica. Mas o povo logo se habituou a ela, vindo a preceder que o dano que poderia causar não era o bastante para aplacar a ferocidade mútua. Compreendeu-se que, embora a bomba atômica pudesse destruir cidades, não poderia exterminar populações rurais esparsas. Por conseguinte, ambas as partes se puseram a trabalhar freneticamente para inventar algo pior. Esse algo pior, que inventaram, foi a bomba de Hidrogênio. Não está bem claro se foi a Rússia ou a América a vencedora da corrida que resultou nessa nova arma. De qualquer modo, foi uma corrida bastante disputada. Abomba de hidrogênio é cerca de mil vezes mais poderosa do que a bomba atômica. A explosão de Bikini, segundo vários cálculos, gerou uma energia igual a que seria produzida por quinze a vinte e dois milhões de tonelada de dinamite. O mundo ocidental teve conhecimento de sua destruição pelo teste realizado em Bikini, a 1º de março de 1954. Essa Explosão ultrapassou todas as expectativas dos americanos que a tornaram possível. A bomba H continua a ser, até hoje a arma mais mortífera que qualquer uma das partes dispõe.
Bomba H” é na verdade uma denominação imprópria pois que o grosso da força explosiva, se deriva ainda do urânio. A explosão processa-se em três estágios. Poder-se-ia compará-la a madeira é mais difícil de arder que o papel, e o carvão mais difícil de queimar na madeira. Na bomba de hidrogênio há primeiro, como na bomba atômica, um suprimento de U235. O calor gerado pela desintegração do U235 é suficiente para causar a desintegração de um suprimento de hidrogênio, convertendo-o em hélio. Tanto o U235 como o hidrogênio são revestidos de espessa camada de urânio ordinário. O calor produzido pela desintegração em hélio é suficiente para fazer explodir a camada externa. Uma parte muitíssimo grande da energia desencadeada, quando explode a bomba H, é devida a camada que a envolve. Os átomos de urânio dividem-se em átomos mais leves de várias espécies, quase todos radioativos. Do ponto de vista militar, a grande vantagem da bomba de hidrogênio provém do emprego de urânio ordinário, ou, mais precisamente do emprego do urânio do qual se extraiu o precioso U235. Somente o imenso calor produzido torna possível desse modo, o emprego do urânio ordinário.
O dano causado pela explosão de uma bomba de hidrogênio não se limita apenas ao lugar em que a explosão ocorre. Produtos radioativos são lançados no espaço a grande altitude, de onde se dispersam pelo mundo, descendo pouco a pouco e causando enfermidades mortais ao homem, além de envenenar água, vegetais e carnes. A queda dessas partículas radioativas é chamada “fall-out”. As substancias radioativas que ocorrem no fall-out são quase todas elas substancias que não ocorrem na natureza, ou que, de qualquer modo, só raramente se verificam. As letais do fall-out tornaram-se conhecidas do público devido a um acidente. Um barco de pesca japonês que tinha um nome irônico de Dragão Afortunado, navegava bastante fora da área designada pelas autoridades americanas como zonas perigosas, mas uma súbita mudança de vento cobriu a embarcação de poeira radioativa, que fez com que todos eles adoecessem e um deles morresse. O fall-out aumenta enormemente o número de mortes que se deve esperar de uma explosão de uma bomba de hidrogênio.
O que aconteceria numa guerra em que se empregasse a bomba H é ainda questão de controvérsia . Em 1958, o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, sumariando um relatório do Pentágono, cauculou que m numa guerra nuclear entre a NATO*¹ e as Potências do Pacto de Varsóvia, morreriam 160 milhões de americanos, 200 milhões de russos e toda a população da Europa Ocidental e da Inglaterra. Houve quem temesse que tais cálculos pudessem esfriar o ardor da NATO na Europa Ocidental e na Inglaterra. Mas tal não ocorreu. Um estranho e inexplicável desejo de morte parece ter-se difundido pelo mundo ocidental e, até agora a descrição dos horrores que se poderia esperar de uma guerra nuclear não produziu qualquer ação, no sentido de evitá-lo por parte dos governos ocidentais, e pouco afetou a opinião pública no sentido. O general James Gavin, então chefe do Departamento de Pesquisas e Produção do Exército dos Estados Unidos, foi interpelado perante o Subcomitê do Senado em maio de 1956. Perguntou-lhe o senador Duff: “Na sua opinião, se entrássemos numa guerra nuclear e a nossa força aérea estratégica se lançasse em peso contra a Russia, empregando as armas nucleares, de modo que tais armas fossem explodidas de maneira que os ventos as levassem para o sudeste da Rússia quais seriam os seus efeitos mortíferos, em tais circunstâncias?”. O general Gavin respondeu: “Dar-lhe-ei uma resposta – e uma resposta específica senador, mas gostaria de sugerir, respeitosamente que tal resposta lhe fosse dada pela Força Aérea por por um grupo de especialistas. Segundo cálculos correntes, várias centenas de milhões de mortes dependeriam, de ambos os lados, da direção em que soprasse o vento. Se o vento soprasse para sudeste, tais mortes ocorreriam principalmente na URSS, embora se estendessem pelo Japão e, talvez, até a região das Filipinas. Se o vento soprasse para o outro lado, tais mortes se verificariam na Europa Ocidental”*¹
Interferia-se, dessa declaração, que dependia apenas do vento saber-se se a maioria das mortes causadas por um ataque americano a Rússia seria de russos ou de europeus ocidentais. A declaração do general Gavin era demasiado honesta para que pudesse agradar as autoridades e ele caiu no desfavor das mesmas.
A questão da sobrevivência, numa guerra nuclear, da margem a controvérsias. Aquelas que, como Hermam Kahn, em seu grande livro 'On Thermonuclear War' desejam encorajar as populações a que se arrisquem a carnificina, alguém que, mediante enormes e profundos abrigos, seria possível salvar-se uma grande parte da população. Kahn insiste em qye os Estados Unidos deveriam gastar trinta bilhões de dólares com a defeza cicvil(pág. 537 – On Thermonuclear War), mas não espera, com efeito, que tal soma seja gasta, e as razões que o levam a pensar que isso salvaria muitas vidas não resistem a um exame. Penso que o melhor que se pode esperar é o que foi dito por John M. Fowler, no livro Fall-out(pg 175)*²: “Um indivíduo ou uma família hábil, dotada de expediente, que se encontrassem fora da área de destruição completa, mas se encontrasse de precipitação letal de fall-out, talvez conseguissem sobreviver durante as primeiras semanas de pesadelo. Metendo-se entre as paredes de um subterrâneo ou encolhendo-se debaixo de algum abrigo improvisado, as pressas, num canto, uma pessoa talvez pudesse sobreviver, embora fora só existisse um forno de morte e silêncio ”. Mesmo isso, tendo-se em vista o envenenamento dos alimentos e da água, a ausência de todos os meios de transporte, a destruição de hospitais e a escassez de socorro médicos, deve ser encarado como um excesso de otimismo.
Devemos considerar não apenas a saúde física dos possíveis sobreviventes após uma guerra nuclear, mas também qual o grau de saúde mental que se poderia esperar depois de um choque emocional maior do que qualquer outro jamais experimentado até então por qualquer criatura humana. É de se espera que muitos senão a maioria dos sobreviventes, enlouqueçam e sejam tomados, provavelmente, de furor destrutivo. E não é só a guerra nuclear que apresenta tal perigo, mas uma proporção considerável de americanos poderá ser salva. Quanto a mim, isso me parece uma previsão otimista. Mas, mesmo supondo-a correta, qual será a condição mental daqueles que, finalmente, deparem com um mundo morto e devastado? Haverá alguma possibilidade de que uma porcentagem considerável deles seja capaz de um trabalho energético de reconstrução, sem o que a recuperação será impossível? Como poderá ser a vida nos abrigos foi vividamente retratado num livro que não teve a publicação que merece: Level 7, de Mordecai Roshwald.
Há talvez, um raio de esperança: Fall-Out tende a não ultrapassar o equador e, se a guerra se limitasse apenas ao Hemisfério Norte, o domínio do mundo talvez passasse as mãos do atual governo da África do Sul. Isto é, sem duvida, seria aclamado como uma vitória do “Mundo Livre”.
Certas coisas devem ter parecido evidentes a todos os que tem refletido sobre os perigos que ameaçam o mundo: uma delas é a urgência de que se chegue ao desarmamento; uma segunda é a importância do abandono das experiências nucleares; uma terceira é o perigo inerente a política atual de represálias imediatas; uma quarta é a necessidade de evitar-se que as armas nucleares se estendam a Potências que ainda as não possuem. Embora a necessidade de ação quanto a todas essas questões seja universalmente reconhecida, nada se conseguiu a respeito de qualquer uma delas. Direi algo acerca de cada um desses tópicos.
As conferências de desarmamento têm-se realizado com enfadonha frequência. Existe uma técnica constante em tais conferências. Cada uma das partes se mostra ansiosa por declarar que é a favor da paz, e cada uma delas, por conseguinte, se apresenta com uma proposta que, se adotada, poderia ter considerável mérito, mas cada uma das partes tem o cuidado de que sua proposta contenha alguma coisa que a outra parte seguramente rejeitará, sendo que nenhuma delas se mostra disposta a chegar a um compromisso razoável, já que isso sera considerado como um apaziguamento covarde. Certa vez, em 1955, o Ocidente teve um golpe desastrado, ao aplicar essa técnica. Fez algumas propostas excelentes ao desarmamento, mas para horror dos Governos Ocidentais, a URSS aceitou as propostas. Diante disso, o Ocidente imediatamente as retirou. Os detalhes desse caso podem ser lidos no livro The Arms Race(A Corrida Armamentista) de Philip Noel-Backer. Penso que qualquer pessoa que leia esse livro será obrigada a concluir que nem Leste nem o Oeste desejam verdadeiramente o desarmamento, e que tanto um quanto outro estão apenas interessados em encontrar uma maneira de defender essa tese sem que a mesma seja aceita.
A abolição das provas nucleares tem sido assunto de longas negociações, que dão as vezes a impressão de que poderiam ser bem sucedida, mas sempre uma ou outra das partes introduz novos pontos de controvérsia, os quais tornam difícil u acordo. É ainda possível que se possa chegar a um acordo, mas não se pode dizer que as perspectiva seja esperançosa. A culpa disso recai principalmente sobre a URSS.
É duplamente importante a abolição das provas nucleares: de um lado tornaria mais difícil a disseminação de aras nucleares entre as Potências; de outro acabaria enquanto a paz perdurasse, com os perigo do fallout. O estrôncio 90 e o carbono 14 talvez representem o perigo mais sério. Consiste de poeira radioativa trazida da atmosfera superior por chuva ou vento, ou simplesmente pela gravitação terrestre causando várias pertubações, as mais graves são: câncer dos ossos, leucemia e danos a células germinativas. Como todas essas pertubações ocorrem de qualquer modo com certa frequência, é impossível dizer-se num dado caso se o fallout a causa da anomalia. Mas todo o mundo exceto certos grupos interessados, estão em acordo ao dizerem que as provas nucleares ocorridas até 1958 aumentaram o número de mortes por câncer e o número de crianças defeituosas. Os governos gasta certa soma de dinheiro em pesquisas para prevenção do câncer, mas dispendem quantia enormemente maior em experiencias que produzem o câncer. Quanto aos efeitos genéticos, citarei a opinião de distinto especialista americano em questões de hereditariedade A. H. Sturtevant*² disse: “Não há meio possível de fugir-se à conclusão de que as bobas já explodidas não resultem finalmente na produção de números de indivíduos defeituosos – se a raça humana sobreviver durante muitas gerações... Lamento que um oficial(o almirante Straus), que ocupa posição de tanta responsabilidade, haja afirmado não existir risco biológico em pequenas doses de radioatividade”.
Pouco depois esse mesmo estudioso declarou em um discurso público, que provavelmente 1800 das crianças nascidas em 1954, o ano da experiência da bomba, já se achavam afetadas em consequência do alto grau de radioatividade desencadeada. No mesmo ano o zoologista americano Curt Stern*³ declarou: “Nesta altura todas as criaturas só mundo já abrigam em seu corpo pequenas quantidades de radioatividade, produzida pelas passadas experiências com a bomba de hidrogênio: estrôncio 'quente' nos ossos e nos dentes, iodo 'quente' na glândula tiroide”*².
É extraordinário e sumamente deprimente observar como a corrida armamentista desfigura o senso moral. Se eu deliberadamente causasse câncer a um indivíduo seria considerado como u monstro de iniquidade, mas se deliberadamente o causasse a milhares de pessoas, seria tido por nobre patriota.
O perigo genético tem a horrível propriedade de ser hereditário. Uma pessoa afetada por esse mal poderá por acaso ter filhos saudáveis, mas estes carregam consigo a contaminação que poderá surgir em seus descendentes. É impossível saber quantas pessoas já foram geneticamente prejudicadas pelas provas nucleares, e os cálculos publicados variam de acordo com as opiniões politicas daqueles que as enunciaram, mas é praticamente certo que houve danos genéticos e que numa guerra nuclear, tais danos seriam grandemente disseminados entre os sobreviventes que pudessem existir. A visão de um mundo escassamente povoado, constituído de indivíduos somente capazes de gerar idiotas ou monstros, é coisa que deve recomendar-se a consideração daqueles confortáveis cavalheiros que contemplam calmamente a possibilidade de explosões nucleares.
A doutrina do revide instantâneo, explicitamente defendida no Ocidente e, provavelmente também advogada no Leste. É uma doutrina a favor da qual existem do ponto de vista militar poderosos argumentos. Nasce do fato de que um ataque inesperado, nos estilo Pear Harbour, daria grande vantagem ao lado que houvesse desferido e, para que a outra parte não se visse completamente incapacitada teria essa de revidar instantaneamente ao ataque, antes que se encontrasse irremediavelmente arruinada. Cada uma das partes acredita que a outra pode a qualquer momento desferir um ataque não provocado, e cada qual por conseguinte tem estar constantemente alerta, pronta para um contra ataque. A tal respeito sabemos mais o que se faz no Ocidente do que no Oriente. Os Estados Unidos possui um vasto círculo de estações de radar a espreita de qualquer sinal que denuncie a aproximação de bombardeiros ou projéteis soviéticos. Logo que se julgue que o radar assinale tal aproximação, bombas de hidrogênio americanas serão lançadas contra a Rússia. Frequentemente são cometidos enganos. As vezes voos de aves selvagens – e, pelo menos uma vez, a Lua – são tomados como sendo projéteis russos. É dado o alarme e os bombardeiros põem-se a caminho. Até aqui os enganos tem sido descobertos a tempo, e os bombardeiros recebem ordens para voltar, mas não há segurança alguma de que os erros futuros sejam descobertos antes que seja demasiado tarde e, se tal acontecer o mundo se veria mergulhado por equivoco numa guerra nuclear. Não é muito provável que tal evento aconteça esse mês, mas a probabilidade aumenta com o passar do tempo e no decurso dos meses e anos que segundo nos dizem, devemos esperar que continue a Guerra Fria, isso se converte quase numa certeza. Enquanto a doutrina do revide imediato com bombas H continuar em vigor, só por sorte sobreviveremos no presente ou em qualquer ano futuro. É esta uma das razões mais urgentes a favor do desarmamento nuclear.
A disseminação de bombas por países que ainda não as possuem é evidentemente indesejável por aumentar em muito a possibilidade de uma guerra nuclear. Embora isso seja universalmente nada de efetivo se fez a respeito. Originariamente somente os Estados Unidos possuíam armas nucleares; depois a URSS também as fabricou, e decorrido algum tempo a Inglaterra. Hoje com toda a probabilidade a França também as possui. Não tardará muito e a China*¹¹ também as terá. No fim um número muito grande de países as possuirá. Se nada for feito não estará muito distante o tempo em que dois países pequenos possam envolver o mundo todo numa guerra nuclear. Mas, embora todo o mundo saiba disso, não se faz absolutamente nada.
Até agora a bomba H é a pior arma de destruição em massa já inventada, mas é obvio que, se tanto a anarquia internacional como a capacidade científica continuarem, armas ainda mais perigosas serão inventadas, provavelmente dentro de pouco tempo. Tem-se falado de uma coisa chamada “A Máquina do Dia do Juízo”. Seria uma máquina que poderia num momento destruir toda a população do mundo. Herman Kahn declarou que se achasse que isso valia pena, ele poderia quase que seguramente inventar tal máquina; mas por enquanto felizmente acha que não seria desejável fazê-lo. É claro no entanto que se soubesse como construir tal máquina alguma nação de fanáticos, diante de uma perspectiva derrota provavelmente a empregaria. Não duvido de que Hitler em sua época teria preferido o extermínio do Homem a ignomínia da rendição.
A parte máquina do Dia do Juízo, há outras probabilidade que precisamos ter em mente. A guerra química e bacteriológica não é ainda considerada tão eficaz quanto as bombas H, mas todas as grandes potências estão empenhadas em aperfeiçoá-la, e poderão dentro em pouco ser bem sucedidas. Outra possibilidade que talvez possa tornar-se realidade dentro de pouco tempo, é a do emprego de satélites manejado pelo homem contendo bombas H. Imagine o leitor um mundo em que o céu seja obscurecido por enxames de satélites russos e americanos, a girar, digamos uma vez por dia em torno da Terra, e cada um deles capaz de infligir enorme carnificina. Seria a vida insuportável em tais condições? Seriam os nervos humanos capazes de aguentar tal coisa? Acaso a apreensão universal no fim não acabaria por fazer com que as pessoas preferissem uma catástrofe súbita a uma vida de terror diário constante? Não sei que horrores nos poderão estar reservados, mas ninguém poderá duvidar de que a menos que se faça algo bastante radical o homem científico é uma espécie condenada. No mundo em que estamos vivendo há um ativo e dominante desejo de morte – desejo esse que até agora, em todas as crises, tem levado a melhor diante da sanidade mental. Se quisermos sobreviver esse estado de coisas não deve continuar. Na parte final deste volume procurarei sugerir meios pelos quais talvez possamos ainda encontrar uma saída.



Comentários do Bertrand
*¹ Bulletin of the Atomic Scientists, nº 12, p. 270, 1956.
*² Brighter Than a Thousand Suns, página 303-4.


Comentários da reedição
NATO North Atlantic Treaty Organization – OTAN : Tratado do Atlântico Norte.
*² Alfred Henry Sturtevant foi um geneticista dos EUA que delineou o primeiro mapa genético de um cromossomo em 1913.
*³ Curt Jacob Stern Geneticista norte americano nascido na Alemanha.
*¹¹ 16-10-1964 Primeiro teste nuclear Chinês.

Capítulo IV
Liberdade ou Morte
Morrer por uma causa é nobre se a causa for boa e a nossa morte puder favorecê-la. Se porém, for praticamente certo que nossa morte nada adiantará, nosso ato não se revelará senão fanatismo...Enquanto o homem continuar a existir a melhoria é possível; mas nem o comunismo nem o anticomunismo poderão ser edificados sobre um mundo de cadáveres...

Patrick Henry, patriota americano que se destacou durante a Guerra da Independência, é hoje lembrado principalmente pela sua exclamação: ”Deem-me Liberdade, ou Morte”. Na boca dos anticomunistas fanáticos isso se converteu num slogan que pretende significar que um mundo sem criaturas humanas seria preferível a um mundo sem comunistas. Tal como Patrick Henry o disse, no entanto, isso tinha significado inteiramente diferente. Defendia ele uma causa justa e devido a hostilidade britânica, essa causa não poderia triunfar sem que houvesse perda de vidas americanas. Por conseguinte sua morte poderia proporcionar liberdade. Em tais circunstâncias, era perfeitamente justo que seu lema fosse aprovado.
Quado porém esse mesmo lema é empregado para justificar uma guerra nuclear, a situação é completamente diversa. São sabemos quais seriam as consequências de uma guerra nuclear. Poderia se ela o fim da espécie humana. Poderia ter como resultado apenas a sobrevivência de uns poucos bandos dispersos de saltadores anárquicos num mundo que houvesse perdido toda a sua coesão social. Poderia nas melhores circunstâncias imagináveis resultar em duros despotismos governamentais, com severo relacionamento de todas as coisas necessárias a vida. Herman Kahn que procura justificar em certas circunstâncias a guerra nuclear, admite que na melhor das hipóteses resultaria naquilo que ele chama de “Socialismo Catastrófico”(página 438). A única coisa que de modo algum, podeira resultar seria a liberdade organizada, tal como Patrick Henry desejava e seus admiradores modernos fingem que desejam*¹.
Morrer por uma causa é nobre se a causa for boa e a nossa morte puder favorecê-la. Se porém, for praticamente certo que nossa morte nada adiantará, nosso ato não se revelará senão fanatismo. Isto se torna particularmente óbvio no caso daqueles que dizem explicitamente preferir a extinção da nossa espécie a vitória comunista, ou, alternativamente, a uma vitória anticomunista. Supondo-se que o comunismo seja tão mau quanto o afirmam os seus piores inimigos, seria não obstante possível que se verificassem melhorias nas gerações subsequentes. Supondo-se que o anticomunismo seja tão mau quanto julgam os estalinistas extremados, o mesmo argumento se aplica. Houve no decurso da história muitas tiranias horríveis, mas com o tempo foram elas reformadas ou extintas. Enquanto o homem continuar a existir a melhoria é possível; mas nem o comunismo nem o anticomunismo poderão ser edificados sobre um mundo de cadáveres.
Aqueles que falam acerca do “mundo livre”, e que são os mais ativos em promover o ódio ao comunismo, revelam de várias maneiras, que não são inteiramente sinceros em sua apregoada política. O governo britânico ultimamente desviou-se de seu caminho, a fim de demostrar amizade para com os Portugueses, embora Portugal se encontre empenhado numa supressão brutal da população não branca de Angola. A Espanha sob o governo de Franco, tem quase senão por completo tão pouca liberdade quanto a Rússia sob o governo de Krushchev; não obstante o Ocidente prestigia a Espanha de todas as maneiras possíveis. A expedição anglo-francesa a Suez não era muito menis mal intencionada do que a supressão russa da rebelião húngara, embora haja causado infinitivamente menos mal por não ter sido bem sucedida. Em Cuba, Guatemala e Guiana Inglesa, as Potências Ocidentais revelaram sua determinação de frustrar os desejos de seus habitantes, contanto que isso fosse possível e necessário para mantê-las dentro do campo ocidental. Recentemente, nos Estados Unidos foi considerado crime alguém pertencer ao Partido Comunista, exceto no caso daqueles que possam provar que não sabiam que o comunismo era subversivo. Todos esses são crimes contra a liberdade. E quanto mais tensa se torne a situação, tanto mais tais crimes serão considerados justificados em nome da Liberdade.
Há no Ocidente muito mais arregimentação e muito mais propaganda enganosa por parte das forças armadas do que geralmente se supõe. Tampouco se admite que tais restrições diminuem a diferença entre o Leste e o Oeste, convertendo em irrisão a pretensão do Ocidente, de intitular-se “O Mundo Livre”.
Considere-se por exemplo, a questão das bases americanas na Inglaterra. Quantos são os que sabem que, dentro de cada uma delas existe um rígido núcleo constituído de pilotos prontos a responder a um sinal de alarme, e tão bem adestrado que poderão estar em voo dentro de um ou dois minutos? Esse núcleo é mantido inteiramente isolado do resto do acampamento, cujo pessoal não é admitido ao mesmo. Esses possuem seus próprios refeitórios, dormitórios, bibliotecas, cinemas etc., e existem guardas armados para impedir que outros americanos que prestam serviços na base tenham a ele acesso. Cada um ou dois meses todos os que lá se encontram, incluindo o comandante são transportados por vias aéreas de volta para os Estados Unidos, e são substituídos por um novo grupo. Aos homens pertencentes a esse núcleo interno quase não são permitidos contatos com outros americanos da base e, de modo algum contato com qualquer um dos habitante da vizinhança.
Parece claro que o único propósito disso é manter os ingleses ignorantes do que se passa, e preservar entre o pessoal do núcleo, aquela reação puramente mecânica a ordens e propaganda, que é o que todo o seu adestramento tem em vista. Ademais as ordens dirigidas a esse grupo não provêm do comandante, mas diretamente de Washington. Supor que numa crise o Governo britânico poderá exercer qualquer controle sobre as ordens enviadas a Washington é pura fantasia. É óbvio que a qualquer momento Washington poderá enviar ordens que conduziriam a represálias por parte das forças soviéticas, e ao extermínio no espaço de uma hora de toda a população da Inglaterra.
Um caso extraordinariamente interessante, que nos dá um exemplo do poder das forças armadas pelo menos nos Estados Unidos, é o de Claude Eatherly*¹, que deu o sinal para o lançamento da bomba em Hiroshima. Seu caso também ilustra o fato de que não raro no mundo moderno, só transgredindo a lei pode um homem deixar de cometer crimes atrozes. Nada lhe disseram acerca do que a bomba causaria, e ele sentiu-se tomado de profundo horror, ao descobrir as consequências de seu ato. Dedicou-se por vários anos a diversas espécies de desobediência civil, tendo em vista não só chamar a atenção para a atrocidade das armas nucleares, mas ainda expiar desse modo o seu sentimento de culpa, que se ele assim não agisse o faria certamente sucumbir. As autoridades decidiram que ele deveria ser considerado demente, e um conselho de psiquiatras extraordinariamente conformista, endossou a opinião oficial. Eatherly arrependeu e não foi considerado tal. Li várias declarações de Eatherly explicando os seus motivos. Essas declarações são inteiramente sensatas. Mas é tal o poder da publicidade mendaz, que quase toda gente inclusive eu, acreditou que ele estava enlouquecido.
Ainda recentemente, como resultado da publicidade em torno do caso Eatherly, o Procurador Geral da República em Washington interveio e Eatherly que fora encerrado, incomunicável, por espaço de seis meses num sanatório, foi transferido para uma outra seção do hospital onde passou a desfrutar de privilégios incomuns, e onde lhe comunicaram seria posto em liberdade em futuro próximo, sem necessidade de novo interrogatório. Não foi posto em liberdade, mas no momento se acha foragido*².
Consideremos ainda o que aconteceu durante uma investigação pelo Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Se algum cidadão de meia idade que não goze por acaso da simpatia desse Comitê, comparecer perante o mesmo é possível que ocorra algo assim:*²

  • Pergunta: Há trinta anos atrás quando estudante, o senhor conheceu alguns comunistas?
  • Resposta: Conheci.
  • Pergunta: Poderia citar seus nomes?
  • Resposta: Não

O infortunado assim interrogado, está sujeito a ser mandado para a cadeia por revelar desprezo pelo Congresso, a menos que refletindo melhor, resolva conquistar o respeito do Comitê denunciando os seus amigos ou, melhor ainda, inventando falsas acusações contra os mesmos. Tal procedimento é tido como justificável em sacrossanta liberdade.
O que venho dizendo não pretende ser uma defesa da URSS. A URSS, principalmente na Hungria, demostrou não só horroroso desprezo, mas crueldade para com aqueles a quem vinha oprimindo. E não foi menos hipócrita do que o Ocidente: O governo da Alemanha Ocidental, restaurado unicamente pelo poderio militar russo, é chamado “Republica Democrática Alemã”. Mas o fato de o Leste ser culpado de crimes não prova a inocência do Oeste . Uma virtude farisaica prevalece de ambos os lados – e ambos os lados são igualmente odiosos.
Uma das coisas medonhas acerca de armas nucleares é que se empregadas em grande escala, causarão imenso dano não só aos beligerantes como também aos neutros. Os neutros tem por conseguinte o direito elementar de preservação de sua própria existência, ao tentar impedir a guerra nuclear. Qualquer que seja o direito que um país possa ter de preservar sua própria forma de governo em face de uma oposição estrangeira, não lhe assiste, dentro de qualquer espécie de justiça, o direito de exterminar muitos milhões de indivíduos que desejam manter-se fora da contenda. Como se poderá afirmar que devido ao fato de muitos dentre nós não apreciarem o comunismo, temos o direito de infligir a morte a inumeráveis habitantes da Índia e da África, que desejam apenas que o deixemos em paz? Acaso não exigiria a democracia que as nações neutras não fossem envolvidas na disputa sem seu consentimento?
Consideremos, por exemplo, o problema de Berlim. Observo aterrorizado que tanto os Estados Unidos como a URSS manifestaram preferir antes a guerra nuclear a submeter-se a uma solução que não lhes agrada. Tais pronunciamentos que envolvem horrores inimagináveis para o mundo inteiro, são intoleráveis parecendo apenas injustificáveis como resultado de um melodrama mutuo. A perversidade do Kremlin ou de Wall Street, conforme possa ser o caso, é um dogma fundamental apoiado de ambas as partes por fanáticos, enceguecidos a tal ponto que não veem os seus interesses em comuns. Em negociações entre o Oriente e o Ocidente, ambas as partes se fossem sensatas, não encarariam a outra como inimiga, mas considerariam a bomba H como sendo a inimiga comum. Tanto o Leste como o Oeste tem um interesse comum, qual seja o de evitar a destruição comum por meio de armas modernas que os ameaça. O ódio recíproco os cega, impedindo-os de ver seus interesses comuns. Nas negociações não existe verdadeiro desejo nem de uma parte nem de outra de chegar a um entendimento, mas, apenas de evitar qualquer coisa que se assemelha a uma vitória diplomática da outra parte.
Atrás dessa inimizade recíproca, existem certas paixões humanas das quais as principais são o orgulho, a desconfiança, o medo e o amor do poder. Os negociadores acham que tem razão de sentir-se orgulhos, quando se opõem mesmos a concessões razoáveis e, nisso, contam, habitualmente, com o apoio da opinião pública de seus países. A desconfiança – que não é de modo algum infundida, enquanto o atual estado de espírito permanecer imutável de ambos os lados – faz com que cada lado encare o que o outro lado diz como contendo, provavelmente alguma armadilha destinada a atrair, mediante alguma astúcia diabólica os seus inocentes negociadores. O medo – que, dadas as presentes circunstâncias, não é, de modo algum irracional – faz o que, não raro, o medo faz, isto é, produzir reações irracionais que aumentam o perigo daquilo que se teme. É este, na vida em particular um fenômeno comum, conhecido de todos os psiquiatras. Num estado de terror a maioria das pessoas não reage sensatamente, mas de uma maneira instintivamente animal. Tive, certa vez um macaco, que era conservado num abrigo especial. O abrigo incendiou-se e foi necessário o esforço de vários homens vigorosos para arrancar o macaco de lá. Se tivesse sido deixado entregue a si mesmo, ficaria imobilizado pelo terror e teria morrido queimado. A situação das grandes Potências no momento é bastante semelhante. Isto se aplica, especialmente a questão do desarmamento. Cada uma das partes aterrorizadas pelas armas nucleares que a outra possui, procura segurança aumentando os seus próprios armamentos nucleares. A outra parte, naturalmente, responde a isso, por sua vez, com um novo aumento. Por conseguinte todas as medidas tomadas no sentido de diminuir o perigo nuclear, o aumentam.
O amor do poder é, talvez, um motivo ainda mais forte do que o medo, ao seduzir as nações fazendo com que busquem politicas irracionais. Embora a jactância individual seja considerada como má educação, a jactância nacional é admirada – pelo menos pelos compatriotas daqueles que a praticam. Através da história, grandes nações foram conduzidas ao desastre por não querer admitir que seu poder tinha limites. A conquista do mundo não passou de um fátuo que fez com que nações fossem conduzidas a sua própria ruína. A Alemanha de Hitler constitui o exemplo mais recente. Recuando no tempo, deparamos om muitos outros exemplos, dos quais o de Napoleão, Gengis Kham e Átila são notórios. Os que consideram o Gênese como história autêntica, podem tomar Caim como sendo o primeiro exemplo: ele poderia ter pensado que livrando-se de Abel, poderia governar as gerações vindouras. Quando Khruschev ameaça eliminar o Ocidente, e Dulles afirma que “Poderíamos vencer a guerra quente”, lembro-me de exemplo passados de insensatez idêntica.
E é de fato extrema insensatez, mesmo do ponto de vista mais estreito do interesse próprio. Espalhar a ruína, a miséria, e a morte, não só em seu próprio país, como no do inimigo, é um ao de loucura. Se o Oriente e o Ocidente pudessem por um fim ao seu antagonismo, poderiam dedicar sua capacidade que somente sua estupidez produziu. Pois que é no coração dos homens que o mal reside. Os vastos instrumentos de terror que tem sido constituído constituem monumentos exteriores erguidos as nossas más paixões. Nada no mundo não humano fornece qualquer razão para as hostilidades existentes. O problema reside na mente dos homens e é iluminando seus espíritos que os homens devem procurar uma solução.
Há os que dizem: “A guerra faz parte da natureza humana, e não se pode modificar a natureza humana. Se a guerra significa o extermínio do homem, devemos suspirar e resignar-nos”. Isto sempre é dito por aqueles cujos suspiros são hipócritas. É inegável que existem homens e nações sobre os quais a violência exerce sedução, mas não existe nada na natureza humana que torne impossível refrear tais homens e nações. Indivíduos que tem queda para o homicídio são refreados pela lei criminal, e a maioria dentre nos, não acha a vida intolerável por não nos ser permitido cometer assassínios. O mesmo é verdade quanto ao que se refere a nações, por menos inclinados que os formatadores de guerras se achem em admiti-lo. A Suécia desde 1814, jamais se viu envolvida em uma guerra. Há muitas formas de competição pacífica que não devem ser deploradas e, nelas, os instintos combativos dos homens podem encontrar plena satisfação. As contendas políticas num país civilizado, despertam, não raro, questões que conduziriam à guerra, se ocorressem entre nações diferentes. Os políticos democráticos habituam-se as limitações impostas pela lei. Ocorreria o mesmo nos assuntos internacionais se houvesse uma maquinaria política destinada a solucionar disputas, e se os homens se tivessem habituado a respeitá-la. Ainda não há muito tempo, as disputas pessoais eram, com frequência resolvidas por meio de duelos, e aqueles que defendiam a prática do duelo afirmavam que a sua abolição seria contrária a natureza humana. Esqueciam-se, como se esquecem os atuais defensores da guerra, de que aquilo se chama “Natureza Humana”, é essencialmente, resultado do costume da tradição e da educação, e de que, nos homens civilizados, somente uma minúscula fração é devida a instinto primitivo. Se o mundo pudesse viver durante umas poucas gerações sem guerra, a guerra acabaria por parecer tão absurda quanto hoje nos parece o duelo. Restariam ainda sem dúvida, alguns maníacos homicidas, mas estes já não seriam chefes de governo.



Comentários do Bertrand
*¹ É um tanto irônico o fato de que aqueles que mais tendem a citar Patrick Henry, quanto a “Liberdade ou Morte”, não tem respeito algum por quem quer que seja que apele para a Primeira ou a Quinta Ementa da Constituição, introduzidas ambas, principalmente devido aos esforços de Patrick Henry, considerando ipso facto, traidor.
*² Muita gente tem a impressão de que tais coisas causaram, com a morte do senador McCarthy. Mas tal não ocorre. O último exemplo de que tenho conhecimento ocorreu a 4 de abril de 1961, quando Peter Seeger, um cantor folclórico foi condenado a um ano de prisão por praticar tal ofensa.



Capítulo V
Os Cientistas e a Bomba Atômica
Um acordo internacional , no sentido de se por um fim as experiencias com bombas nucleares, serviria, agora, como um primeiro passo rumo a um desarmamento mais geral e a abolição final, efetiva de armas nucleares, evitando a possibilidade de uma guerra nuclear que seria uma catástrofe para toda humanidade...

Uma Grande parte do público em geral tem a impressão de que os cientistas são moralmente culpados dos perigos a que as armas nucleares expõe o mundo. Há na verdade, alguns cientistas a quem se pode atribuir legitimamente uma parte dessa culpa. São os que se acham empregados por seus governos na construção de armas nucleares ou em pesquisas que tem vista tal construção. Mas uma considerável maioria dentre os cientistas eminentes, fez tudo o que podia para combater o perigo nuclear. Políticos, imprensa e público impediram que os esforços desses cientistas fossem amplamente reconhecido. Nesse capítulo proponho-me dizer algo acerca dos esforços que eles fizeram.
Quando o governo americano propôs pela primeira vez o início da construção da bomba H, Oppenheimer que fora o principal agente na construção da bomba A, se opôs ao novo projeto. As autoridades sentiram-se ultrajadas e trazendo a tona certas antigas indiscrições de que sempre tiveram ciência, fizeram aprovar em 1954 uma decisão segundo a qual esse deveria ser considerado “secury risk” – ou em outras palavras, que ele já não deveria ter acesso ao quaisquer informações confidenciais.
Há também quem pense que houve uma inocência em se permitir que ele fizesse a bomba A, negando-lhe permissão para fazer a bomba H. A bomba A foi feita em tempo de guerra, quando se supunha( erroneamente porém com boas razões) que Hitler estava prestes a descobrir a maneira de construí-la. A fabricação da bomba H foi empreendida em tempo de paz, quando ficou certo que se tal projeto continuasse, a URSS a teria tão logo quanto os Estados Unidos, e que a mesma não poderia construir por meio de vitória para nenhuma das partes.
Entrementes, o comprovado poder destrutivo da bomba H despertou o maior alarme entre praticamente todos os cientistas que trabalhavam para os seus respectivos governos, Por iniciativa do Conde Bernardotte, vários cientistas eminentes ( pertencentes porém apenas a nações ocidentais) reuniram-se na ilha de Mainau e em 15 de julho de 1955, assinaram a seguinte declaração:

Nos, os signatários deste apelo, somos cientistas de vários países, de várias raças,, de crenças diferentes e de diferentes convicções políticas. Mas compartilhamos todos o mesmo privilégio de haver recebido o Prêmio Nobel.
Temos sido muito felizes por termos dedicado nossas vidas a serviço da ciência, pois julgamos que a ciência conduz a uma vida mais ampla para a humanidade. Sentimo-nos porém, alarmados, ao constatar que é essa mesma ciência que agora fornece ao homem meios de destruir a si próprio.
Mediante a guerra total e o emprego de armas agora disponíveis, o mundo poderá ficar tão infestado de radioatividade, que uma guerra resultaria na destruição de nações inteiras, aniquilando tanto os neutros assim como os beligerantes.
Se as grandes potências se empenhassem em guerra, quem poderia garantir que ela não se converteria numa luta mortal?Assim toda nação que se empenhe em guerra total não só corre o risco de destruição, como ainda põem em perigo o mundo inteiro.
Não negamos que é devido ao medo dessas armas destruidoras que se mantêm a paz presentemente no mundo. Contudo achamos extremamente enganoso acreditar-se que o medo de tais armas consiga com o passar do tempo, evitar guerras. Pelo Contrário, o medo e as tenções tem conduzido com bastante frequência a deflagração de guerras. Do mesmo modo, parecemos enganoso imaginar-se que os conflitos menores possam ainda ser resolvidos mediante emprego de armas tradicionais. Nenhuma nação em guerra negará a si própria, em ocasiões de extremo perigo, o uso de quaisquer armas que as técnicas científicas lhes possam proporcionar.
Assim todas as nações devem chegar voluntariamente a decisão de renunciar ao emprego da força como último recurso em política externa. Pois que deixarão de existir se não estiverem dispostas a fazê-lo.

O dr. Linus Pauling, que tem sido um dos mais ativos dentre todos os cientistas que procuram uma maneira de diminuir os perigos de uma guerra nuclear, redigiu uma petição as Nações Unidas, insistindo na necessidade de se chegar a um acordo quanto a cessação das provas nucleares, como primeiro passo para a abolição de tais armas. Sua petição recebeu a assinatura de 9235 cientistas, sendo em janeiro de 1958, apresentada ao Sr. Hammarskjöld. Essa importante petição diz.

Nos, os cientistas abaixo assinados, insistimos quanto a necessidade de que se faça prontamente um acordo internacional tendo em vista cessar as experiencias com bombas nucleares.
Cada experiência com a bomba nuclear aumenta a carga de elementos radioativos em toda a parte do mundo. Cada aumento de radiação causa danos não só a saúde das criaturas humanas em todo o mundo como as costas de plasmas de germes humanos que tendem a aumentar o número de crianças defeituosas que nascerão em gerações futuras.
Enquanto todas as armas se encontram nas mãos de apenas três potências, é ainda mais factível que se chegue a um acordo quanto ao seu controle. Se tais experiencias continuar, e a posse dessas armas se estender a outros governos, o perigo da deflagração de uma catastrófica guerra mundial, devido a ação imprudente de algum líder nacional irresponsável, será muitíssimo maior.
Um acordo internacional , no sentido de se por um fim as experiencias com bombas nucleares, serviria, agora, como um primeiro passo rumo a um desarmamento mais geral e a abolição final, efetiva de armas nucleares, evitando a possibilidade de uma guerra nuclear que seria uma catástrofe para toda humanidade
Temos em comum com os nossos semelhantes profunda preocupação pelo bem estar de todas as criaturas humanas. Como cientistas, temos conhecimento dos perigos que isso encerra e, por conseguinte, da responsabilidade especial que nos cabe de fazer que se conheça tais perigos. Consideramos imperativo que sejam tomadas medidas imediatas no sentido de se conseguir um acordo internacional que ponha fim as experiências com armas nucleares.

O Governo Indiano elaborou um relatório redigido por homens de ciência da máxima competência, intitulado As Experiencias nucleares e Seus Efeitos. Esse relatório foi publicado em Nova Delhi, em 1956 – e, uma segunda edição, em 1958. Trata-se de um documento admiravelmente objetivo, mas, por essa razão, não servia aos propósitos políticos do Oriente ou do Ocidente, além de não oferecer nada que pudesse interessar aos jornalistas em busca de notícias sensacionais. Por conseguinte teve pouca repercussão, quer no Oriente, quer no Ocidente.
Em Agosto de 1955, realizou-se em Londres, uma importante reunião da Associação Parlamentar para um Governo Mundial, a qual compareceram quatro representantes da URSS, bem como representantes de todos os outros países independentes. Os participantes não eram de modo algum apenas membros de Parlamentos. Havia cientistas, sociólogos, filósofos, sendo que a organização e a agenda da conferencia tinham sido, em grande parte, preparadas por cientistas. Tanto os russos como os demais participantes revelaram desde o começo, perfeita cordialidade, sendo recebidos com igual simpatia pelos participantes Ocidentais. Tornou-se óbvio, a medida que prosseguiam os trabalhos que se os assuntos do mundo tivessem sido a um tal congresso, a tenção Oriente Ocidente teria sido rapidamente afrouxada, e muitos problemas, que aos governos pareceram insolúveis, poderiam ter sido resolvidos de modo que não implicassem em renuncia alguma, por nenhuma das partes de interesses vitais. Logo no começo dos trabalhos apresentei uma moção, após uma ligeira discussão, foi unanimemente aprovada, nos seguinte termos:

Desde que exite agora o perigo de que, em caso de qualquer futura guerra mundial, possam ser usadas armas nucleares, e já que tais armas ameaçam causar incomensuráveis sofrimentos e destruição, estamos com os governos do mundo para que compreendam e reconheçam publicamente que seus propósitos não podem ser favorecidos por uma guerra mundial. Por conseguinte estamos para que se processe a um exame imediato das implicações dos recentes progressos científicos para a humanidade em geral, e para que se provam meios pacíficos tendentes a solução de todas as questões de disputa internacional.

A isso, ajuntei:

Essa resolução, como talvez possais ter observado, não é exatamente a que apresentei no começo da conferência. As diferenças existentes são devidas a discussões mantidas com os nossos amigos, os cientistas soviéticos, com os quais tenho a alegria de dizer que chegamos, após discussão muitíssimo cordial, a completo acordo quanto ao que se refere a resolução que podemos todos apoiar. Esse acordo e essa unanimidade são muito importante. Alegra-me sobremaneira, com efeito, que essa resolução tenha podido ser assim redigida, de modo a merecer o apoio tanto de nossos amigos soviéticos como dos do Ocidente. É o começo de uma cooperação que, espero, se alargara e aprofundará através dos anos, até que desapareçam as divergências até agora existentes.
O professor C. A. Golounsky, da Academia das Ciências de Moscou também falou:

Os cientistas soviéticos confiaram-me o agradável dever de dizer-vos que apoiam a resolução. Desejo também de modo especial, ressaltar o espirito de cooperação e compreensão mútua que orientou o comitê, permitindo que se chegasse a uma aprovação unanime da resolução. As decisões desta Conferência não tem força legal. Mais importante, porém seria o fato de ter sido esta resolução aprovada não pela maioria, mas por unanimidade, exprimindo os sentimentos de todos os aqui presentes. Estamos certos de que a adoção desta resolução será uma contribuição substancial para o fortalecimento da paz internacional e a segurança dos povos do mundo.

O professor A. V. Topchiev, Secretário Cientifico da Acadêmia Soviética, usou, por último, da palavra dizendo entre outras coisas:

Os cientistas soviéticos julgam ser seu agradável dever ressaltar que esta Conferência constituiu, positivamente, um êxito. Reinou, durante todos os trabalhos um espirito de compreensão recíproca e um sincero desejo de chegar a um acordo. É característico e significativo o fato de que, tanto a resolução principal da Conferencia, como as discussões das Comissões, tenham sido aprovadas por unanimidade... Nossa Conferencia demostrou que é possível chegar-se a acordo sobre qualquer questão, se todos os participantes o desejarem sinceramente e revelarem compreensão, levando em conta os pontos de vista de seus companheiros... É importante ressaltar-se uma outra feição positiva de nossa Conferencia, que é a de reunir cientistas de países diferentes e permitir contatos pessoais entre os mesmos que sem dúvida, contribuirá não só para o progresso e fortalecimento dos laços internacional, como, também, para novos êxitos da ciência.
Os trabalhos terminaram numa atmosfera de cordialidade e de imenso entusiasmo. Os primeiros dois terços do ano de 1955 foram um período de esperança. Realizou-se, com pleno êxito, uma grande conferencia em Helsinki, chamada “Assembleia Mundial Pela Paz”, patrocinada principalmente por comunistas, mas para a qual contribuíram também não-comunistas. Quanto a mim, não me foi possível comparecer, mas enviei um trabalho contendo os termos possíveis para solucionar as disputas entre o Leste e o Oeste, o qual mereceu a aprovação de quase todos os participantes da conferencia. A esperançosa atmosfera de então foi, no entanto, desfeita pelos Governos Ocidentais, que, ao ver suas propostas de desarmamento aceitas inesperadamente pela Rússia, as retiraram imediatamente. Ainda em meses recentes, esse mesmo método foi empregado pela URSS, a fim de impedir a conclusão do trabalho de interdição de provas nucleares.
A organização a qual eu estava mais estreitamente ligado era a que veio a ser conhecida pelo nome de “The Pugwash Movement”. Isso surgiu de uma declaração que enviei, em rascunho, a um pequeno numero de homens de ciência da mais alta preeminência, a começar por Einstein, que assinou dois dias antes da sua morte. Meu propósito era assegurar a cooperação entre cientistas comunistas e não-comunistas, em questões que se achavam dentro de sua competência técnica e, se possível em medidas internacionais relacionadas com armas nucleares. Pensei que uma declaração assinada por cerca de doze dos homens vivos mais capazes da época, talvez tivesse algum efeito sobre os Governos e o publico. Após conseguir, para começar o que me pareceu ser um numero suficiente de assinaturas, publiquei a referida declaração, por ocasião de uma Conferência de Imprensa organizada por redatores do Observer, a qual contou com apoio bastante ponderável por parte desse jornal. Essa conferencia que teve a sorte de ser presidida pelo Prof. Rotblat, teve lugar a 9 de julho de 1955. É o seguinte o texto dessa Declaração:

Diante da trágica situação com que se defronta a humanidade, somos de opinião que os cientistas deveriam reunir-se em conferencia, a fim de aquilatar os perigos surgidos em consequência da criação de armas de destruição em massa e discutir uma resolução dentro do espirito do ateísmo da minuta anexa.
Não falamos nesta ocasião como membros deste ou daquele país, continente ou credo, mas como criaturas humanas, membros da espécie Homo Sapiens, cuja existência se encontra ameaçada. O mundo está cheio de conflitos – e, ofuscando todos os conflitos menores, a luta titânica entre o comunismo e o anticomunismo.
Quase todos os indivíduos politicamente conscientes alimentam sentimentos profundos acerca de uma oi mais dessas questões; mas queremos que vós, se puderes, ponha de lado tais sentimentos e vos considereis apenas como membros de uma espécie biológica que tem uma história notável, e cujo desaparecimento nenhum de nós deseja.
Procuraremos não dizer uma única palavra que diga mais a um grupo do que a outro. Todos igualmente correm perigo e, se o perigo for compreendido, há esperança de que possam, coletivamente evitá-lo.
Precisamos aprender a pensar e uma nova maneira. Temos de aprender a perguntar a nós mesmos não quais os passos que devem ser dados para que a vitória caiba ao grupo de nossa preferencia, – pois que já não existem tais passos. A pergunta que devemos fazer a nós mesmos é: que medidas poderão ser tomadas para evitar uma contenda militar para todos os participantes?
O público em geral, e até mesmo muitos homens que ocupam posições de autoridade, não compreenderam quais seriam as consequências de uma guerra nuclear. O público em geral ainda pensa em termos de eliminação de cidades. Sabe-se que as novas bombas são mais poderosas do que as antigas, se uma bomba atômica pôde arrasar Hiroshima, uma bomba H poderia destruir por completo Nova York e Moscou.
Não há dúvida de que, numa guerra com bombas H, grandes cidades seriam completamente arrasadas. Mas isso seria um dos menores desastres que teríamos de enfrentar. Se toda a população de Londres, Nova York ou Moscou fosse exterminadas, o mundo talvez pudesse no decurso de poucos séculos refazer-se de tal golpe. Mas sabemos hoje, principalmente depois da experiência de Bikini, que as bombas nucleares podem aos poucos espalhar a destruição sobre áreas muito mais amplas do que se havia suposto.
Afirma-se com base em autoridade digna de crédito, que se pode construir hoje uma bomba 2500 vezes mais poderosa do que aquela que destruiu Hiroshima. Tal bomba, se explodir perto do solo ou sob a água, envia partículas radioativas as camadas superiores da atmosfera. Depois, essas partículas caem aos poucos sobre a superfície da Terra em forma de poeira ou chuvas mortais. Foi essa poeira que contaminou o os pescadores japoneses e os peixes que haviam apanhado.
Ninguém sabe até onde essa partículas radioativas poderiam espalhar-se, mas as melhores autoridades são unânimes em afirmar que uma guerra com bombas de hidrogênio poderia provavelmente exterminar a raça humana. Receia-se que se muitas bombas forem usadas haverá morte universal – súbita apenas para uma minoria, sendo que a maioria sofrerá a lenta tortura da doença por desintegração.
Muitas advertências tem sido feitas por eminentes homens de ciência e por autoridades em estratégia militar. Nenhum deles diz os piores resultados sejam certos. O que todos dizem é que tais resultados sejam possíveis – e nenhum deles pode ter certeza de que os mesmos não ocorram. Não nos fo dado cerificar, até agora, que as opiniões dos especialistas neste assunto dependiam de algum modo, de suas convicções políticas ou de seus preconceitos. Dependiam apenas, tanto quanto o revelaram as nossas investigações, da extensão dos conhecimentos pessoais de cada um deles. Constatamos que os que mais sabem são os que se mostram mais assombrados.
Eis aqui o problema que vos apresentamos – nu, terrível, inescapável: Poremos um fim a raça Humana, ou deverá a humanidade renunciar a guerra?*¹ Não agrada ao homem ter de enfrentar tal alternativa, por ser sumamente difícil abolir-se a guerra.
A abolição da guerra exigirá desagradáveis limitações da soberania nacional.*² Mas, o que talvez impeça, mais do que qualquer outra coisa, a compreensão da situação, é o fato de o termo “Humanidade” ser vago e abstrato. As pessoas mal percebem, em sua imaginação, que o perigo diz respeito a elas próprias, a seus filhos e netos, e não apenas a uma Humanidade da qual apenas vagamente se apercebem, Mal podem compreender que elas individualmente, e aqueles a quem amam, corem perigo iminente de perecer de maneira atroz. E, assim esperam que talvez se possa permitir que a guerra continue, contanto que as armas modernas sejam proibidas.
Esta esperança é ilusória. Quaisquer acordos a que se possa chegar, em tempo de paz, quanto ao emprego de bombas H não mais serão considerados válidos em tempo de guerra, e ambos os lados se poriam a fabricar bombas H logo que a guerra irrompesse, pois que se um lado as fabricasse e o outro não , o lado que as fabricasse sairia inevitavelmente vitorioso.
Embora um acordo no sentido de se renunciar as armas nucleares como parte de uma redução geral de armamentos*³ não constituísse uma solução final, atenderia ao menos a certos propósitos importantes. Primeiro qualquer acordo entre o Leste e o Oeste será um bem, já que tenderá a diminuir a tensão existente. Segundo: a abolição de armas termo nucleares, se cada lado acreditar que o outro a efetivo sinceramente, diminuirá o temor de uma ataque súbito a maneira de Pearl Harbour, o qual, no momento, mantém ambos os lados num estado de apreensão nervosa. Deveríamos acolher de bom grado tal acordo, embora apenas como um primeiro passo.
A maioria dentre nós, mantém-se neutra em seus sentimentos a respeito, mas como criaturas humanas, devemos lembrar-nos de que, se quisermos que as questões entre o Leste e o Oeste sejam solucionados de um modo que possa causar possível satisfação a todos quer sejam comunistas ou anticomunistas,asiáticos, europeus ou americanos, brancos ou pretos, tais questões não deverão ser decididas por meio da guerra. Deveríamos desejar que isto fosse compreendido tanto pelo Leste como pelo Oeste.
Jaz a nossa frente, se o escolhermos, um progresso contínuo em felicidade, conhecimento e sabedoria. Mas será que ao invés disso, escolheremos a morte, por não nos ser possível esquecer nossas disputas? Apelamos, como criaturas humanas a criaturas humanas: lembremo-nos de nosso caráter humano, e esqueçamos o resto. Se assim pudermos fazê-lo, estará abarto o caminho para um novo paraíso; senão teremos a nossa frente o risco do extermínio universal.
Propôs-se que se convocasse uma conferencia de cientistas, e que se votasse uma Resolução redigida mais ou menos nos seguintes termos:
Resolução:
Convidamos este Congresso e através dele, os cientistas do mundo e o público em geral, a subscrever a seguinte resolução:
Em vista do fato de que em qualquer futura guerra mundial serão certamente empregadas armas nucleares, e que tais armas ameaçam a existência da humanidade, instamos junto aos Governos do mundo para que compreendam, e reconheçam publicamente, que seus propósitos não podem ser alcançados mediante guerra mundial, e assim os exortamos a que procurem encontrar meios pacíficos para solucionar todas as questões de disputa entre eles.

O espírito desta resolução orientou posteriormente, as Conferencias Pugwash.
Foram os seguintes signatários do documento:

Prof. Max Born(professor de Física Teórica em Berlim, Frankfurt e Göttingen; professor de Fisiologia Natural, Edinburgh, 1936-53; Prêmio Nobel de Física).

Prof. P. W. Bridgman(Professor da Universidade de Harvard; Prêmio Nobel de Física)

Prof. Albert Einstein.

Prof. L. Infeld(Professor da Universidade de Varsóvia; membro da Academia de Ciência da Polônia; Coautor, com Einstein de 'A Evolução da Física e o Problema do Movimento').

Prof. J. F. Joliot-Curie(Professor do Colégio de França; membro do Instituto da Academia de Medicina; Presidente da Federação Mundial de Trabalhadores Científicos; Prêmio Nobel de Química).

Prof. H. J. Muller(Ex-professor em Moscou, Índia etc...; atualmente professor da Universidade de Indiana; Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina).

Prof. Linus Pauling(Diretor dos Laboratórios Gates e Grellin; Instituto de Tecnologia da Califórnia; Prêmio Nobel de Química).

Prof. C. F. Powell(Professor de Física na Universidade de Londres; Prêmio Nobel de Física).

Prof. J. Rotblat(Professor de Física na Universidade de Londres Colégio de Medicina do Hopital São Bartolomeu).

Bertrand Russel.

Prof. Hiderki Yukawa(Professor da Universidade de Kioto; Prêmio Nobel em Química).

Essa declaração foi por mim enviada a vários chefas de Estado, acompanhado da seguinte carta:

Excelentíssimo...
Incluo a esta uma declaração assinada por alguma das mais eminentes autoridades cientificas em guerra nuclear, assinalando o perigo de extremo e irrespeitável desastre que tal guerra implicaria, e a consequente necessidade de encontrar-se uma outra maneira que não a guerra, pela qual fossem solucionadas as disputas internacionais. Espero ardentemente que Vossa Excelência manifeste publicamente sua opinião quanto ao problema de que trata esta declaração, o qual é o mais grave de todos aqueles com que já deparou até hoje a raça Humana.

Respeitosamente,
De Vossa Excelência.,
(assinado) BERTRAND RUSSEL



Ao tempo da publicação, eram onze os signatários(dois deles com ligeira restrições). A declaração reclamava uma conferencia internacional de cientistas não só do Leste e Oeste, como, também, das nações neutras. A principal dificuldade para se inaugurar uma tal conferencia era de ordem financeira, já que poucos cientistas podiam pagar suas passagens. Ficara decidido que não se devia aceitar quaisquer contribuições de grupos organizados já existentes, mas essa dificuldade foi resolvida pela generosidade de Cyrus Eaton, que colocou suas propriedade rural em Pugwash, na Nova Escócia, a disposição do congresso,


Ao tempo da publicação, eram onze os signatários(dois deles com ligeira restrições). A declaração reclamava uma conferencia internacional de cientistas não só do Leste e Oeste, como, também, das nações neutras. A principal dificuldade para se inaugurar uma tal conferencia era de ordem financeira, já que poucos cientistas podiam pagar suas passagens. Ficara decidido que não se devia aceitar quaisquer contribuições de grupos organizados já existentes, mas essa dificuldade foi resolvida pela generosidade de Cyrus Eaton, que colocou suas propriedade rural em Pugwash, na Nova Escócia, a disposição do congresso,
contribuindo ainda, generosamente, quanto aos fundos necessários. Verificou-se como se esperava, que quando cientistas procedentes de muitos países e de muitas e diferentes opiniões politicas, se reúnem numa atmosfera de cordial sociabilidade, torna-se possível chegar-se a um entendimento muito mais amplo do que o que já foi jamais conseguido em discussões oficiais promovidas por contribuindo ainda, generosamente, quanto aos fundos necessários. Verificou-se como se esperava, que quando cientistas procedentes de muitos países e de muitas e diferentes opiniões politicas, se reúnem numa atmosfera de cordial sociabilidade, torna-se possível chegar-se a um entendimento muito mais amplo do que o que já foi jamais conseguido em discussões oficiais promovidas por Governos. Após a primeira conferencia, formou-se um comitê, que deveria organizar conferencias futuras. Além de pequenas conferencias relativas a pontos especiais, ficou decidida a realização de grandes conferencias, que abrangessem problemas econômicos e sociólogos, não se limitando os seus organizadores a convidar apenas cientistas, mas, também sociólogos, economistas e outras pessoas cujas opiniões pudessem ser valiosas. Realizaram-se até agora, seis dessas conferencias*¹¹, permitindo a elaboração de relatórios em que se verifica unanimidade de opinião por parte não só de representantes de países do bloco comunista, como também de representantes do Ocidente e de países neutros. Como um dos ais importantes documentos, citarei trechos da “Declaração de Viena” de 20 de setembro de 1958, aprovada unanimemente pela terceira Conferencia Pugwash, com exceção apenas de um participante americano, que se absteve de assiná-la. Essa declaração diz(em parte):

Reunimo-nos em Kitzbühel e Viena, numa ocasião em que se tornou evidente que o progresso das armas nucleares tornou possível ao homem destruir a civilização , com efeito, a si próprio – e em que os meios de destruição se tornam cada vez mais eficientes. Os cientistas participantes de nossas reuniões, que desde há muito se interessam por esta questão, são unanimemente de opinião que uma guerra nuclear em grande escala constituiria uma catástrofe mundial de magnitude sem precedente.
Em nossa opinião, é muito difícil uma defesa contra ataque nuclear. A crença infundada em medidas defensivas pode até mesmo contribuir para a deflagração de uma guerra.
Embora as nações possam concordar em eliminar, dos arsenais do mundo, as armas nucleares e outras armas de destruição em massa, conhecimento da maneira de se produzir jamais poderá ser destruído. Continuarão a constituir, para sempre, uma ameaça a humanidade. Em qualquer grande guerra futura, cada beligerante se sentirá não apenas livre, mas compelido a empreender a imediata produção de armas nucleares – pois que nenhum estado, em tempo de guerra poderá ter a certeza de que tais medidas não estejam sendo tomadas pelo inimigo. Acreditamos que em tal situação, uma grande Potência Industrial levaria menos de um ano para começar a acumular armas atômicas. A partir de então, a única coibição contra o seu emprego na guerra seria a elaboração de acordos para que as mesmas não fossem usadas, acordos esses concluídos em tempos de paz. O poder decisivo das armas nucleares, porém, seria uma tentação quase irresistível no sentido de que as mesmas fossem empregadas, principalmente por parte dos líderes que estivessem na iminência de derrota. Parece provável que as armas nucleares sejam empregadas em qualquer grande guerra futura, com todas as suas terríveis consequências.
Costuma-se dizer as vezes que as guerras circunscritas em certas áreas, com objetivos limitados, talvez pudessem desenrolar-se sem consequências catastróficas. A histórias mostra, porém que o risco de os conflitos locais se transformarem em grande guerras é muito grande, para que possa ser aceitável numa era de armas de destruição em massa, A humanidade deve, por conseguinte dedicar-se a tarefa de eliminar todas as guerras, inclusive guerras locais.
A corrida armamentista é resultado de desconfiança entre os estados – e também contribui para essa desconfiança. Qualquer medida que atenue a corrida armamentista e conduza mesmo a pequenas reduções de armamentos e forças armadas, baseada em base equitativa e sujeita ao necessário controle é desejável. Acolhemos jubilosamente, nesse sentido e em particular, o recente acordo de Genebra, entre representantes do Leste e do Oeste, sobre a factibilidade de detenção de testes nucleares. Como cientistas causa-nos particular prazer o fato de que esse acordo unanime, o primeiro após longa série de malogradas negociações internacionais acerca de desarmamento, tenha sido possível, devido a compreensão recíproca e aos objetivo comum de cientistas provenientes de países diversos. Notamos com satisfação que os governos dos Estados Unidos, URSS e Reino Unido aprova, as declarações e as conclusões contidas no relatório dos técnicos especializados. Isto constitui significativo êxito; podemos ardentemente esperar que a essa aprovação se seguirá o acordo internacional tendente a cessação de todas os testes nucleares e a um sistema de controle efetivo. Isso seria o primeiro passo para o afrouxamento da tensão internacional e o fim da corrida armamentista...
Nossas conclusões acerca das possíveis consequências da guerra contaram com o apoio de relatórios e teses apresentadas a nossa conferência. Esses documentos indicam que se numa guerra futura, uma proporção substancial de armas nucleares já fabricadas fosse lançada contra alvos urbanos a maior parte dos centros de civilização dos países beligerantes seria totalmente destruída, causando o extermínio de quase toda a população. Isso seria certo, quer as bombas usadas derivassem quase todo o seu poder das reações de fusão(as chamadas bombas “limpas”), ou, principalmente das reações de desintegração(as chamadas bombas “sujas”). Além de destruir os principais centros populacionais e industriais, tais bombas também arrasariam a economia do pais atacado, mediante a destruição de meios vitais de distribuição de comunicação.
As principais Potências já tem armazenados grandes estoques de armas nucleares “sujas” – e, ao que parece continuam a fazê-lo. De um ponto de vista estritamente militar, as bombas sujas apresentam vantagens em certas situações, o que torna provável o seu emprego numa grande guerra.
O “fall-out” local resultante do uso extensivo de bombas “sujas” causaria a morte de uma grande parte da população do país atacado. Após a explosão de grandes números de bombas(cada explosão equivalendo a milhões de toneladas de explosivos químicos comuns), a poeira radioativa se espalharia não só sobre o território em que elas tivessem sido lançadas, mas com intensidade variada sobre toda a superfície da Terra. Muitos milhões de mortes seriam assim, produzidas não apenas nos países beligerantes, mas também nos neutros devido aos efeitos agudos da radiação.
Haveria ainda grandes danos causados a longo prazo pela radiação, que afetaria em toda parte organismos humanos e outros que iriam sofrer com efeitos somáticos, tais como, leucemia, câncer dos ossos e diminuição da vida humana, até danos genéticos, afetando os traços hereditários transmitidos a progênie...
Não é necessário dizer-se que os danos biológicos decorrentes de uma guerra, em que fossem usadas muitas bombas nucleares, seriam incomparavelmente maiores do que os decorrentes de testes nucleares, O problemas imediato com que depara a humanidade, é o que diz respeito ao estabelecimento de condições que eliminem a guerra.
Acreditamos que como cientistas, temos importante contribuições a fazer no sentido de estabelecer a confiança e a cooperação entre as nações. A ciência é por longa tradição, um cometimento internacional. Cientistas que devem lealdade a nações diferentes encontraram facilmente uma base comum de compreensão: usam os mesmos conceito e os mesmos métodos: trabalham tendo em vista objetivos intelectuais comuns, apesar de divergências filosóficas, econômicas e políticas. A rápida e crescente influencia da ciência nos assuntos da humanidade aumenta a importância da compreensão reciproca. A habilidade dos cientistas do mundo inteiro para se compreenderem uns aos outros e trabalharem jundos, constitui excelente instrumento para transpor o abismo existente entre as nações e uni-las em torno de objetivos comuns. Acreditamos que ao trabalhar juntos em todos os campos em que a cooperação internacional se revele possível, constitui importante contribuição no sentido de estabelecer-se uma apreciação justa da comunidade de nações. Isso pode contribuir para o desenvolvimento de um clima de confiança mútua, necessário para a solução de conflitos políticos entre as nações, e que é a base essencial para o desarmamento efetivo, Esperamos que os cientistas de toda a parte reconhecerão como coisa de sua responsabilidade, tanto para a humanidade como para com suas próprias nações, contribuir com suas ideias, tempo e energia para o fortalecimento da cooperação internacional...
É nossa crença que a ciência poderá melhor servir a humanidade se estiver livre da interferência de qualquer dogma imposto por fora, e se exercer o seu direito de discutir todos os postulados, inclusive os seus próprios...
Nas Atuais condições de desconfiança entre as nações, e da corrida para a supremacia militar resultante dessa confiança, todos os ramos da ciência – física, química, biologia, psicologia – se envolveram cada vez mais em assuntos militares. Aos olhos do povo de muitos países, a ciência tornou-se algo associado ao aperfeiçoamento de armamentos. Os cientistas ou são admirados pela sua contribuição a segurança nacional, ou amaldiçoados por terem posto em risco, com a invenção das armas de destruição em massa a sobrevivência da humanidade. O aumento de apoio material de que a ciência hoje desfruta em muitos países, é desenvolvido principalmente a sua importância direta ou indireta quanto ao poderio militar da nação, e o grau de seu sucesso na corrida armamentista. Isso desvia a ciência de seu verdadeiro propósito, que é aumentar o conhecimento humano e promover o domínio do homem, em beneficio de todos sobre as forças da natureza.
Deplorando as condições que conduzem a tal situação, e apelamos a todos os povos e seus governos para que estabeleçam condições de paz duradoura e estável.*²²



O movimento Pugwash foi recentemente honrado pelo Comitê de Segurança Interna do Senado(que é um subcomitê do Comitê Judicial do Senado dos Estados Unidos). O relatório desse Comitê é um documento verdadeiramente surpreendente. Considera-se como coisa evidente que qualquer pessoa do Ocidente que deseje diminuir a tensão existente entre o Leste e o Oeste deve ser levada a isso por tendências pró-comunistas: que em qualquer contato mais ou menos cordial entre qualquer comunista e qualquer não-comunista, o comunista será capaz de ludibriar o não-comunista, por maior que seja a capacidade desse último; que qualquer participante comunista das conferências de Pugwash deve exprimir apenas a orientação política de seu governo – mas que, não obstante, apesar dos pronunciamentos em tais conferencias a favor da paz, assinados pelos comunistas o governo russo se inclina para guerra. O relatório lança mão de artimanhas realmente espantosas. Quanto a mim cita o meu pronunciamento: “Temos de aprender a perguntar a nós mesmos não quais os passos que devem ser dados para que a vitória caiba ao grupo de nossa preferência, pois que já não existem tais passos” – mas omite esta última frase. Acentua que minha opiniões política em 1948 não eram as mesmas que em 1959 e benevolentemente, insinua “que , em 1948, Russel contava apenas 76 anos de idade, enquanto que em 1959 tinha 87”. Deixando de mencionar que durante esses anos, outra mudança se verificara, talvez mesmo mais importante do que minha decadência rumo a senilidade – isto é, que na primeira data somente os Estados Unidos tinham a bomba A, enquanto que na última data, tanto a América quanto a Rússia possuíam a bomba H. Prosseguindo diz o relatório que havia comunistas nas conferências Pugwash, como se bastasse esse fato para desacreditá-las. Quanto ao objetivo de diminuir as tensão entre o Leste e o Oeste, o qual não poderia ser alcançado na ausência de comunistas, era evidentemente encarado como sendo em si repreensível. A aprovação por Moscou do livro “No more War, de Pauling”, é citada como uma prova da corrupção moral de Pauling, baseando-se tal acusação ao que parece, no fato de que nenhuma pessoa bem intencionada poderia ser contrária a guerra nuclear.
Todas essas, porém, são críticas de menor importância que a última análise, talvez quisessem significar apenas que os cientistas ocidentais são, como diz o relatório, criaturas simplórias, “que em sua santa ignorância, acreditam que a participação soviética era motivada simplesmente por um desejo erudito de favorecer a causa da ciência internacional ou por um impulso idealista no sentido de promover o movimento a favor do desarmamento e da paz mundial”. Os olhos de ágio a do Comitê de Segurança Interna do Senado porém, penetraram mais fundo nos motivos ocultos dos cientistas de Pugwash. Há no relatório, uma parte intitulada “Instigação a Atos de Traição”. Nessa parte são descritas as atividades de Alan Num May, Julius Rosenberg e Klaus Fuchs, tendo em vista dar ao leitor a impressão de que esses “traidores” tinham decerto modo, ligações com o Movimento Pugwash. Pouquíssimas vezes tenho deparado com um trecho de propaganda mais desonesto do que esse.
Todo o tom do relatório deixa a impressão de que os 'perversos russos' enaltecem a paz, enquanto que todos os americanos patriotas enaltecem a guerra. Qualquer pessoa imparcial, que lesse o Relatório e acreditasse nele, seria levada inadvertidamente a apoiar a Rússia. Afortunadamente o Ocidente não é tão sinistro quanto o Relatório o pinta. Mas seria bastante insensato deixar passar por alto o fato de que os Comitês do Senado possuem intenso poder de perseguição, e que se valem desses poderes, em geral, para desencorajar e desacreditar todas as tentativas sensatas.



Comentários do Bertrand
O prof. Joliot-Curie deseja acrescentar estas palavras: como um meio de se solucionar as divergências entre os países.
*² Deseja o prof. Joliot-Curie aduzir que, no interesse de todos, todos devem concordar com tais limitações.
*³ O prof. Muller deseja que isso seja entendido como uma redução equilibrada e concomitante de todos os armamentos.
*¹¹ É preciso esclarecer que nem todas as conferencias realizadas em Pugwash tiveram relação com o que se conhece como “The Pugwash Movement”, de autoria do Prof. Rotblat, que será publicada dentro em breve. Eu gostaria de ressaltar que o seu trabalho tem sido da máxima importância.
*²² Essa declaração foi assinada por 1 cientista da Austrália, Áustria, Bulgária, Dinamarca, Holanda, Hungria, Iugoslávia, Noruega, Polônia e República Democrática Alemã, respectivamente; por 2 cientistas do Canadá, Checoslováquia e Itália; por 3 da Índia; 4 da França; 5 da República Federal Alemã e Japão; 7 da Grã-Bretanha; 10 da URSS; e 20 dos Estados Unidos. Desejo chamar, particularmente a atenção do leitor para o parágrafo que ressalta a importância de o cientista se achar livre de dogmas, o qual foi assinado por todos os dez participantes da URSS.


Livros recomendados: (Recomendações originais da obra)
  • Assault at Arms, a Policy for Disarmament – General Sir Ronald Adam, Chales Judd, London 1960.
  • Brighter Than a Thousand Suns : The moral and Polictical History of The Atomic Scientifists – Robert Junior; Victor Gonzales Ltd, London 1958.
  • Can We End the Cold War? A Stud in American Foreign Policy – Leo Perla; Macmillan, New York 1960.
  • Community of Fear – Harrison Brown, James Real; Center for Study of Democratic Institutions, Santa Barbara California, 1960.
  • Disarmament, the intensified effort(1955-8), Departamento de Estado,Washingon D.C., july 1958.
  • Fall-Out: A Study of Superbombs, Strontium 90 and Survival – ed. John M. Fowler; Basic Books, New York 1958.
  • Inspection for Disarmament – ed. Seymour Melman; Columbia University Press, New York, 1958.
  • 1970 Without Arms Control – National Planning Association, Washington D.C. 1958.
  • No Carte Blanche to Capricorn: The Folly of Nuclear War Strategy – Edouard Le Chait; Broockfield House, New York 1960.
  • No More War – Linus Pauling; Dodd Mead and Co.; New York 1958
  • Nuclear Explosions and Their Effects – Publication Division, India, Ministry of Information and Broadcasting, New Delhi 1958.
  • On Thermonuclear War – Herman Khan; Princeton University, Princeton 1960.
  • Peacemaker or Powder-Monkey : Canada in a Role Revolutionary – James M. Minifie; McClellan Stwart, Canada 1960.
  • Survival, Vol II e II, Nº 1 –Strategic Study Institute, London 1960 e 1961.
  • The Arms Race: A Programme for World Disarmament – Philip Noel-Baker; Stevens and Sons, London 1958
  • The Causes of World War Three – C. Wright Mills; Simmon and Schuster, New York 1958.
  • The Logic of Defense : A Short Study of the “Nuclear” Dillema – Patrick Lord-Phillips, London 1959.
  • Towards Sanity : A Stud of the Defense of Britain – Patrick Lord-Phillips; Radical Publications, Gales 1960.16,9
  • Why We Are Here – H. L. Keenleyside; National Commitee for Control of Radiation Hazards, Montreal 1960.

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