segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Religiosismo ou Religiosidade?


Manual prático de um Ateu.

Religiosismo ou Religiosidade?


O que é Religião? Essa é a pergunta que vejo ateus, agnósticos e religiosos fazerem e responderem, eu mesmo já fiz muitos textos sobre isso, porém nunca deixei comentário de nenhum tipo sobre a religiosidade. O que me faz pensar por fim se existe algo que possa diferenciar entre o sentimento comum de religiosidade de qualquer que seja a religião, me vejo assim dentro de um empasse entre Religiosismo e Religiosidade, pois ao que parece, ambas tem o mesmo sentido, mas não nos enganemos elas são realmente muito diferentes.
Religiosidade é um sentimento comum, acredito que todo ser humano compartilhe dos mesmos sentimentos, ateu, crente ou até mesmo um indivíduo ilhado de uma tribo que nunca viu a sociedade civilizada, todos ficam perplexos com a grandeza da natureza. Podemos assumir desse ponto que religiosidade é uma faculdade natural enquanto todo o religiosismo ou a aplicação dessa faculdade, seja uma tendência, assim como crença de coisas sagradas para o indivíduo, resulta esta também em uma manifestação de um grupo. Tenho comigo muitas coisas, algumas são tocáveis outras não, um exemplo é minha honestidade que tanto valorizo, meus livros que da mesma forma também sofro por tal apreço, por fim coisas e coisas das quais nunca abriria mãos: Família, Amigos e assim por diante. Esse empenho, admiração, zelo, capricho, carinho e assim pode ser assumido como sendo impulso de minha religiosidade natural, a mesma que acredito eu, ser a grande cola que une os sete bilhões de seres humanos.
Se a admiração pelo mundo, assim como pelo 'todo belo' e 'elegante' que ele pode oferecer, pode-se definir como religiosidade, sim, digamos que até eu mesmo um ateu convicto sou dotado de tal religiosidade. Da mesma maneira outros ateus, até mesmo Dawkins ou Hitchens, assumiam tais sentimentos( nenhum deles em nenhum de seus trabalhos tentou provar o contrário), mas se isso é religiosidade então não é contradição ser ateu? A resposta é simples, 'não', todos rituais até agora catalogados como religiosos são resultados dessa religiosidade comum, indo além dessa ideia estaremos exercitando nossa religiosidade em religiosismo, sendo assim mediante processo 'religião', o que se pode observar de uma zona neutra é que a religiosidade está presente em toda a espécie Homo Sapiens.
Podemos assumir sem sentimento de contradição que somos dotados da mesma religiosidade em comum a qualquer ‘religioso’. Parecendo estranho? Concordo que dizer que sou dotado de religiosidade e não sou religioso parece mesmo, porém o que mesmo indivíduos de grupos religiosos mesmo sendo tão distintos em suas ideias possuem de igual forma? Todos os grupos religiosos que pude ver, e alguns com os quais pude conviver, possuíam certos ideais que são tão parecidos que até nos confundiríamos. É inegável o quanto a valorização da família e a admiração pela natureza do mundo permeia as mais diferentes visões, da mesma forma os pudores e os tabus.
Até hoje não conheci, e provavelmente não conhecerei jamais, nenhuma religião que abomine a união familiar, assim como o sentimento de irmandade oferecido pela unidade do grupo, tal grupo nem sequer sairia do papel, afinal, tempos de crises nos mostram o quanto membros de igrejas diversas se unem para ajudar seus membros e algumas comunidades de não membros. Em suma, todos indivíduos que conheço são dotados de religiosidade, alguns muito religiosos e outros pouco. O religiosismo ao que pelo menos sempre me pareceu, é a imposição de certas expressões de religiosidade. Porém vejo também que existe uma certa controvérsia.
Há em nós tendências para o religiosismo, isso é inegável, não devemos nos esquecer que somos máquinas projetadas para aprender, e para realizar-se tal façanha devemos ter certos impulsos naturais, algo que estimule os indivíduos, algo que os faça querer. Todos seres vivos possuem a sua maneira essa tal religiosidade que estou tanto querendo passar para o leitor, afinal uma sardinha deve ir para onde o cardume vai e nada mais, não há sinalização não há adestradores, as sardinhas se vão como onda e somente isso e nada mais, o elefante come no momento que toda a manada para comer, nenhum indivíduo abandona a manada para fazer o que quer fazer, uma formiga segue a trilha que a outra produziu e faz exatamente o que veio ao mundo para fazer. Parar quando a manada para, nadar com o cardume, seguir a trilha de cheiro e assim por diante, vemos o quadro se repetindo por toda natureza, a devoção as propensões naturais resulta em indivíduos sobreviventes, que por sua vez aumentam a sobrevivência do corpo coletivo e do coletivo mais uma vez para o indivíduo, isso exige impulso natural.
A lei do meio ambiente é a sobrevida, estamos todos a beira da morte, desesperados para continuar vivo, e esse desespero é necessário para a continuidade da vida, mecanismos e mais mecanismos se adaptaram mudaram, migraram, segundo Darwin é exatamente essa corrida que nos tornou o que somos, e logo também o que fazemos de melhor. Se somos dotados de ferramentas para aprender logo devemos ser estimulados por dentro. Há um ‘Know-How’ que nos impõe essas condições naturais para que vivamos em sociedade: Aprenderá, Fará. Mas o macaco vê o macaco faz por si só não responde a questão principal para a existência de uma sociedade tão complexa quanto a humana. Existem os impulsos, existem também as mutações sobre os impulsos, descobrimos formas de abusar das recompensas naturais, “Você quer ser feliz?”, garanto que todos já ouvimos essa mesma pergunta, eu lhe dou duas sugestões e ambas o irá levar ao mesmo objetivo(felicidade) a sua maneira. Primeiro lhe sugiro dedicar sua vida inteira a buscá-la por meio das experiências diárias. Segundo, lhe sugiro as drogas. Calma! Explico, descobrimos moléculas capazes de nos dar aquilo que as experiências da vida guiada pelos impulsos naturais dariam sem que tenhamos de esperar, afinal quem não é viciado em algum meio artificial de felicidade?
Toda criança é curiosa, somos todos curiosos, quem nunca chamou um amigo que sabia mexer melhor no computador para dar uma olhada e depois perguntou ‘O que você fez. O que tinha’. Como somos animais que aprendem, aprender exige muitos mecanismos, os pais serão sempre o primeiro meio, os amigos, as cadeiras ou o sofá para se apoiar. Tem uma frase que eu gosto muito de D'Arcy Thompson “Tudo é porque ficou desse jeito”, a seleção natural pode parecer para muitos como simplesmente uma mão invisível que mata o que não é bom e deixa viver o que é bom, porém essa ilusão é somente meio falsa. A seleção natural impõe aos indivíduos variações que dependem dos seus ambientes. Somos melhores do que qualquer espécie, achamos, não se iluda quando digo ‘achamos’ coloco a mim mesmo dentro do pote, porém não somos tão bem sucedidos quanto as amebas são em seu habitats. No que somos resultado de trabalho de muitos milhões de micro-organismos para fazer o que fazemos, no que é mais importante a nós uma ameba sozinha faz tão bem quanto nos mesmos, que é sobreviver.
As apostas da seleção natural são ao que muito se deixa perceber não somente imposição, mas também supervalorização das melhores aptidões dos indivíduos, uma borboleta larga seu ovo, este por sua vez eclode e deixa uma larva cuja única esperança e comer e se esconder, após tal processo esta se encasula e sai por ai numa corrida frenética contra o tempo atrás de parceiros sexuais. Não somos dotados de tal potencial, larguemos uma criança recém nascida no meio do mato, nem muito irá saber pegar um graveto e levar a boca, senão chorar e espernear até a morte na esperança que algum adulto ouça e venha a seu socorro. No que as lagartas foram aperfeiçoadas na técnica de sobrevivência a ponto de deixarem suas crias a míngua sozinhas, fomos aperfeiçoados a sobrevivência a nossa maneira. Para nós nada além da vida de uma criança é tão importante, nem as nossas, afinal não foi a toa que demos como toque de salvamento como mulheres e crianças primeiros. Fomos dotados por esse espírito coletivo durante longas experiências de sobrevivência e reprodução. Mesmo as crianças que sobreviveram aos campos de concentração tiveram filhos, e cuidaram desses.
Há uma corrida para sobreviver em todo canto que olhamos, inclusive os que não olhamos que é dentro de nós mesmos. As pressões naturais as quais empurramos os vírus da influenza, faz com que aumente cada vez mais a quantidade de variações que são resistentes aos novos métodos de tratamentos. O mesmo fez a savana conosco, fez com que as melhores características do nosso grupo aumentasse sua população, aumentando sua perspectiva de sobrevivência e reprodução. Para que um grupo muito grande como o nosso possa sobreviver é necessário aprimorar o melhor de nos mesmos, e foi isso que fizemos e que nos possibilitou reproduzirmos e passar esse Know-How melhorado aos próximos que por fim vieram. Mas nem em tudo ele deve acreditar, pois lembremos daquele pássaro, o cuco, ele vem e coloca seus ovos nos ninhos de outros pássaros e deixam o pobre do instinto maternal alheio fazer todo o trabalho, ponto positivo para o cuco e negativo para a vítima.
Somos viciados em aprender, para isso precisamos de um meio, precisamos viver em grupo, ser aceito por esse, essa forma de existir também cria certos empecilhos para todos nós, pois somos viciados viciados por natureza com aquilo que pode nos trair, que é a vontade de estar em um grupo e fazer parte dele, somos programados para receber recompensa por esse comportamento com o sentimento de conforto, fraternidade e muitos outros, talvez essa seja a resposta do porquê das pessoas fazerem coisas estúpidas em nome da fé. Assim como podemos estimular a recompensa da felicidade com certas moléculas vinda do mundo de fora, podemos super estimular o sentido de grupo aderindo a grupos que nos faça sujeitar o que há de mais valioso, a ponto de nos sentirmos mais do que integrado a esses grupos, a ponto de sentirmo-nos o próprio grupo em si.
Fazer o bem é bom,e fazemos até pelo telefone quando nos ligam para pedir doação, eu mesmo já fiz isso e me senti um herói, consegui sujeitar algo de valor em mim a ponto de ter uma sensação de alívio e me sentir parte do mundo, isso é viciante tanto quanto revigorante. Essa capacidade de super estimulação das aptidões naturais nos faz querer ser o que fomos feitos para ser, animais que sobrevivem em bando, mas nossa capacidade de aprender nos deu o potencial para super estimular nossos sentidos vulgares. Aprender a tocar violão é uma experiência que me estimula tanto que até mesmo meus problemas do cotidiano desaparecem, e isso me faz querer tocar mais e melhor, acredito que essa capacidade de super estimulação dos sentidos nos faz querer dirigir em alta velocidade, aprender um novo idioma. Nenhuma de nossas ações sociais são vãs e sem sentido, elas são dotada de uma única vontade final, obter a satisfação, o que por sua vez obriga os indivíduos a buscar por mais e mais, marchando rumo a um infinito de novas experiências e recompensas, levando ao êxito da sobrevivência pela vontade de viver.
A capacidade que cada indivíduo tem de querer ser alguém, é o que podemos definir por sentimento de religiosidade em sua condição 'pura'. Da mesma forma como a inclinação natural a buscar grupos que possuem as mesmas inclinações, somos produto do produto ad-infinito do produto, variações que lutam por vantagem em um único jogo cego e sem sentido. Puts! Fiz de novo, não se preocupe, peço desculpas, aceite mais uma vez esse artigo em seu coração, perdoe esse contraditório escritor que afirma ter sentido e não ter ao mesmo tempo. Essa capacidade de aceitar e ser aceito é um vício que pode ser estimulado.
A imposição das ideias de um grupo religioso, é a imposição de seu sentimento de religiosidade, é a super estimulação das aptidões naturais que cria os grupos, é grupo que super estimula as aptidões naturais, afinal os pais também aprendem com os filhos, as empresas aprendem com os funcionários, os funcionários aprendem com as experiências do trabalho, da mesma forma os dogmas religiosos aprenderam a respeitar os tabus humanos e os humanos aprenderam com os dogmas religiosos a respeitar seus tabus. É tão difícil ainda explicar quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, o dogma ou o tabu, a experiencia ou o aprendizado, o pai ou o filho, para que não nos percamos por entre perguntas retóricas como essas uma coisa deve estar bem gravada em nossas mentes, como D'Arcy Thompson “Tudo é porque ficou desse jeito”, e realmente, houveram mudanças no meio que possibilitaram as criação de ferramentas, vieram as ferramentas que melhoraram o meio, e por fim tudo é porque ficou desse jeito.


Rudson Florencio da Silva

3 comentários:

  1. Gostei bastante desse texto e acredito que não seja só parte de um "manual prático de um ateu" mas sim de ateus, crentes e até de quem não dá bola para essas coisas de religião e ateísmo, pois acredito que o ateísmo não deixa de ser uma religião para algumas pessoas, assim como os filmes da saga Guerra nas Estrelas, os Beatles, etc. Guardarei esse texto nos meus favoritos, pois pra mim faz muito sentido. Só não tenho certeza se religiosidade e espiritualidade dão no mesmo, mas sei que prefiro utilizar a palavra "espiritualidade" para me referir a essas coisas que tu disse. Grande abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prefiro dizer que é um senso comum de religiosidade, espiritualidade também é aceitável.

      Excluir
  2. mas você chamá pelo o nome de deus quando você precisa né ? aposto que sim,então não venha você me dizer que é ateu . faça um favor para sociedade ajude quem precisa .

    ResponderExcluir