quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A sombra de sete bilhões

A sombra de sete bilhões

Vou começar com uma resposta de um biólogo ucraniano a corrida pela sobrevivência de todos os seres vivos em nossa pequena esfera azul, Theodosius Grigorevich Dobzhansky (24/01/1900 – 18/12/1975).

Levante-se, macaco bípede! O tubarão pode superá-lo em seu nado, o guepardo vencê-lo na corrida, a andorinha superá-lo no vôo, o macaco-prego deixá-lo para traz em uma escalada, o elefante sobrepujá-lo na força e a sequóia viver muito mais tempo. Mas é você quem detém o maior de todos os dons: o dom de compreender o processo implacavelmente cruel que nos deu origem, o dom de reagir contra suas implicações, o dom do discernimento – algo totalmente estranho aos precipitados métodos de curto prazo da seleção natural – e o dom de internalizar o próprio cosmo.

Somos talvez a primeira espécie animal que pensa e premedita, somos tudo o que há de novo em máquinas de sobrevivência para propagar DNA. Com essa capacidade dominamos os oceanos de uma forma que nenhum tubarão ou animal marinho conseguiu antes, ocupamos as mais elevadas montanhas, criamos sistemas e técnicas de preservação da nossa própria vida coletiva e individual, criamos a história, criamos o tempo. Somos por toda a face do planeta terra a única espécie que talvez possa escapar da própria extinção. Futuramente passíveis a longevidade, tanto individual quanto cultural, nossos feitos e nossas obras podem durar mais tempo do que qualquer sequóia, pois um único indivíduo da continuidade a história do outro. Encontramos-nos eternizados em nossos filhos, assolados por compromissos deixados pelos nossos fantasmas dos antepassados como disse Carl Sagan.
Com essa nova e sagaz capacidade, curiosamente fomos movidos a se perguntar e a explorar, a preparar um lugar melhor para nossos pequenos, então traçamos nossa nova história a partir da Savana africana, nos espalhamos pelo planeta de tal forma que nenhum outro animal terrestre ou marinho fez antes, passamos a morar em todos os habitats possíveis, as pequenas e lentas modificações sofridas por toda espécie de animal para superar o meio ambiente foi zombada por um único mamífero. Quase desnudo o ser humano superou o peludo urso polar em seu continente gelado, superamos a dura realidade dos processos naturais quando a criatividade superou o meio. Morrer por inanição ou morrer ao virar comida, de dilema natural passou a uma triste realidade alheia, agora restou aos leões correr para caçar o antílope, ao antílope restou ter pernas para correr do leão.
Rompendo os grilhões da própria existência ao dominar e entender os processos naturais, o macaco-bípede de Dobzhansky criou o tempo, antes dele o cosmo todo eram somente lampejos de gotas de orvalho em um pálido céu noturno, as chamas o ensinaram a dominar o medo da noite, durante muitas noites as mesmas chamas amedrontaram os reais culpados desse medo, passando a colocar não somente o fogo nos gravetos, mas também nas paredes de suas moradas. Inconscientes, passaram a sobreviver de suas analogias, aprenderam a fixar suas vozes, visões e pensamentos nas paredes, eternizaram o calor, eternizaram o tempo, deixaram a história do fogo para seus filhos.
Cada indivíduo passou a ser uma nova descoberta e um novo descobridor, um novo professor e um novo aluno, uma nova esperança de uma antiga história. O conhecimento é uma responsabilidade individual, cabendo a si a preservação da própria história. Somos hoje sete bilhões, sete bilhões de sonhos, a história dos nossos antepassados e o caminho dos nossos sucessores. Muito além de filhos, somos a continuidade de um ideal, somos todas realizações de uma história em um tempo presente.
Criamos vacinas e afastamos o fantasma da morte inevitável por vírus e parasitas, salvamos nossas crianças da triste realidade da poliomielite. Superamos nossos conceitos de sociedades motivadas por sangue e raiva, desmoronamos as paredes das raças e das etnias, sobre uma nova filosofia de vida coletiva, aonde em um ideal de convivência para sobrevivência, superamos a inescapável realidade das possíveis cinzas nucleares.